Os filhos de Anansi

“Toda pessoa que já existiu, existe ou existirá tem uma canção. Não é uma canção que alguém escreveu. Tem melodia própria, tem palavras próprias. Pouquíssimas pessoas chegam a cantar a própria canção. A maioria teme que sua voz não faça justiça a ela, ou que as palavras sejam tolas, honestas ou estranhas  demais. É por essa razão que as pessoas optam por, em vez disso, viver suas canções.”

Neil Gaiman, p. 157.

Eu já cantei, (ainda) canto e (tenho certeza de que) cantarei muitas canções vida afora. Porém não sei se em algum momento chegarei de fato a cantar a minha própria.

Ela tem tantos versos simples e estúpidos quanto versos belos e cheios de significado. O fator comum é sempre a complexidade das palavras que os compõem. Sem falar na melodia, que as vezes oscila dos mais tristes e lamuriosos sons, aos mais alegres e harmoniosos.

Já consigo escutar um pouco dela, de tempos em tempos. Mas as vezes temo que a minha voz não alcançará certas notas (ainda que ela não seja tããão ruim e desafinada assim).

Ora ou outra suspeito (lá do alto do meu ego, que as vezes é um gigante imponente, de dez metros de altura) que essa canção é grandiosa, e que deveria ecoar pelos quatro cantos desse mundo redondo.

Mas em outras vezes (quando o meu ego encolhe e quase desaparece, escondido num buraco de agulha) tenho certeza de que ela deveria ficar encerrada em uma caixinha de música, muda e inerte.

Talvez um dia eu a abra – conforme for conveniente. Mas e se ninguém gostar?! E se me fizerem (mais uma vez) me calar?!…

O que eu mais espero, no entanto e no final das contas, é que essa canção seja mesmo a minha.