Dia 36

 

Um grito ele amou
Lençóis e colchas vão se encontrar
Não é mais dia 26 (…)”

 

Hoje eu já chorei. Mas preciso chorar muito mais — até que, quem sabe, passe esse desejo de não mais viver.

Escutando uma música muito bonita e triste, que me acompanha desde a adolescência, não consegui segurar minhas lágrimas; pensei em todas as coisas que me oprimem — inclusive e principalmente as saudades.

Saudades do meu pai (e dos tempos em que nossa relação era melhor — e existente), de momentos de mais carinho, de épocas nas quais ainda não havia ouvido tantas palavras duras e nem havia apanhado tanto de pessoas próximas, de quando eu era uma criança de 5 anos, tagarela e feliz, de ser mais ingênua, de abraços e colos, de sentir que meus esforços valeriam a pena, de sentir e saber que ainda tenho apoio e alguém que quer e vai tentar me entender, dos meus 17, quando eu ainda tinha esperanças mais descomplicadas de achar meu rumo na vida (ainda que eu já soubesse que havia algo de errado), de ter mais tempo e sanidade, de me sentir menos cansada e com menos dor, de não me sentir preterida, inferior e indigna, de ter planos mais concretos, de saber lidar de forma mais leve com as minhas responsabilidades, de momentos do passado e de acreditar que há um futuro, … de amar de modo sincero e sem travas e de me sentir amada.

Saudades do amor.

Hoje eu já não quero mais pensar. Hoje já não é mais dia 26 — e nunca mais será.

28/05: Nesta tarde me abri com uma amiga. Contei pra ela coisas que penso há tempos, em relação a como me sinto, e que nunca havia contado pra ninguém. Ela me perguntou se eu pretendia fazer alguma coisa “reckless, let’s put it this way”, e eu lhe disse que não, que ela podia relaxar.

Mas, na verdade, na verdade, eu só acho que não. Quer dizer… o que é de fato ‘reckless’?

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Nós somos reféns daquilo que sabemos dos outros — sejam omissões, mentiras ou verdades.

* * *

Tinha planejado postar algo hoje.

Seria uma foto de uma página de um livro; não é um excerto belo — pelo menos não na concepção comum de ‘belo’. Mas é significativo. Fala do que é o gesto na aproximação de duas pessoas.

Foi também hoje que recebi uma carta de uma moça pra quem escrevi (vejam só, há mais ou menos um ano e meio), falando de como está, e que conseguiu se libertar de um relacionamento abusivo (e agora isso tudo chega a ser “irônico”, como uma típica piada de mau gosto — dessas que a vida adora nos contar de tempos em tempos).

Mas, afinal, as horas passaram, e os sentimentos e o timing também…

… porque hoje eu descobri algo que é um ponto sem volta.

Há dois anos o conheci, em certa circunstância. Quando ela passou, ainda que com mil ressalvas, acabei decidindo lhe dar uma “chance”.

Passamos uma noite juntos no começo de outubro, e foi awkward, desajeitado, mas não necessariamente ruim. Em um momento ele insistiu em fazer algo que eu não queria, mas, frente às minhas negativas, acabou desistindo. Ainda assim, não rolou um climão.

O depois foi cheio de pontos pra processar, mas aquela noite não se repetiu, por N motivos (existentes ou auto-impostos). E eu me arrependi disso — até então (?!).

Antes tarde do que nunca, suponho. Mas… como…?!

……..

Há um ano, aproximadamente, postei aqui uma imagem de um filme, que tem, na minha opinião, uma fala muito emblemática:

“We accept the love we think we deserve”.

Talvez eu já conhecesse essa fala, do livro ou do filme; não lembro.

No entanto, por mais que não, já naquela época, eu pensava em coisas assim. Inclusive, um dos motivos pra me afastar foi por achar que eu precisava me proteger, e acreditar que eu merecia mais.

E eu não sei se mereço; talvez não. Possivelmente não — porque, infelizmente, não existe essa coisa de “merecer”.

Mas, ainda assim, às vezes eu gosto de acreditar que sim.

E, de um jeito ou de outro, nem assim eu pareço me ajudar.

Ainda vai demorar um bom tempo pra digerir isso.

Damn…

E descobrir isso agora, na minha atual conjuntura, de certa forma é pior ainda.

(Eu nem sei exatamente como estou me sentindo agora… em algum lugar entre triste, confusa e cansada, provavelmente.)

Olhos vermelhos

24/02, aprox. 10am:

“Os velhos olhos vermelhos voltaram(…)”.

Me causa até uma afliçãozinha que essa música seja da Capital Inicial. Porque a letra não é tão bosta assim. E é bem relatable.

As minhas dores é que voltaram, na verdade.

Não que elas tenham me deixado de fato; em alguns dias elas se esgueiram pra fora do buraco, onde consigo mantê-las relativamente isoladas na maior parte do tempo.

O que acontece é que nessas férias elas tiraram férias do buraco também.

Ficar parada e quietinha é bom. Eu gosto demais disso. E passo o ano inteiro sentindo falta, porque tudo é caótico e “entulhado”.

Mas, quando faço isso, elas tomam conta de mim: quanto mais imóvel, mais dor eu sinto.

Então eu vou dormir, cansada, e, quando acordo no dia seguinte, me sinto mais cansada ainda. Exausta, na verdade.

“Morrer, dormir; não mais. E com o sono — dizem! — extinguir as dores no coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita. Eis uma consumação ardentemente desejável” (Shakespeare).

Eu sei essa citação de cor. Talvez porque eu gostaria muito que ela fosse verdadeira. Ou, quem sabe, porque realmente era até um tempo atrás.

É difícil e “chato” não saber onde repousa a sua paz.

E (muito) doloroso.

Eu não quero tomar remédios o tempo todo. Mas se eu não tomar, pelo menos por ora, os dias ficam mais miseráveis (ainda).

Então eu tomo um analgésico aqui, outro ali, e sinto a hipocondria familiar avançando, passo a passo, pra fora de um outro buraco.

Porque eu sou assim mesmo, toda perfurada por dentro.

Quem sabe é até por isso que sinto dor: sou como uma esponja, cheia de sulcos e reentrâncias, que fica absorvendo diversas coisas ruins.

 

08/03 — 09/03:

Alguma coisa me derrubou. Dor de cabeça, no pescoço, nas costas, fotossensibilidade, dores nas articulações dos joelhos, quadril, punhos e cotovelos, dor no abdômen, perda de apetite, febre, pele sensível (como se tivesse sofrido queimaduras de sol)… E.A.? Gripe? Virose? Dengue? haha.

Pensar que pode ser a última é tão distante que me faz rir. Mas os sintomas batem… 

A última vez que me senti assim foi no começo do ano passado.

Mas, mesmo naquela época, eu não sentia todas essas coisas.

Um copo de água com limão, dois comprimidos analgésicos, e muitas horas de sono… e nada.

Rolei de um lado para o outro, desconfortável e agoniada, tentando reprimir uma crise de ansiedade que parecia avançar rapidamente.

O plano foi encerrado em outubro passado, e ir ao hospital público não está rolando (deveria ter feito isso hoje de manhã, já que não fui pra aula — mas eu não estava nem conseguindo me vestir sozinha).

A pressão vai me sufocando, e as partes do meu corpo parecem peças mal encaixadas de um exoesqueleto. Se eu apenas pudesse tirá-las, uma a uma!…

Que merda; acho que estou mesmo um pouco assustada (haha).

09/03, aprox. 10pm:

Antes de sair para a escola, deu “teto”. Tive que pedir para cancelarem a aula, pra que eu pudesse ir ao PS.

18:37, horário de chegada; 21:15, horário de saída. E nenhuma resposta.

“É bom que você fique atenta, e, se as dores não diminuírem, você volta, faz exames, e fica sob observação”.

Ah, vá.

Fragmento 7 – Confusão

[Eu preciso escrever. Mas não sei nem bem por onde começar…]

As coisas não vão tão bem, e algumas estão muito fora do lugar.

Aliás, se for pra parar pra pensar local ou globalmente, está tudo errado, e isso também me afeta. E demais. Me sinto uma antena captando tudo isso, e ainda menor e inútil nos meus dramas.

Porém, feliz ou infelizmente, tenho também meus problemas pessoais pra resolver.

Ele finalmente está saindo de casa; nada que não esperássemos. Mas parece que está fazendo tudo que pode para complicar ainda mais nossas vidas.

Me irrita duplamente: primeiro por si só; mas também por ver que suas ações estão me transformando numa pessoa cada vez mais cínica e “esperta” — pra que ele não nos deixe “pra trás”.

Quer dizer: já está deixando.

Mas não vou admitir que nos deixe por baixo — principalmente à ela.

Na verdade, esse tem sido o ano pra endurecer. E, tristemente, pra perder também um pouco da ternura, talvez. E eu não queria isso… juro que não. Tenho feito o que posso pra nadar contra a corrente, mas há horas em que meus braços não aguentam mais, e eu só quero boiar.

Os golpes vão me atingindo, e eu sinto cada-um-deles. Mas alguns deles já nem doem mais.

Eu entendo e aceito melhor agora: eu “perdi” vocês dois, que nunca foram meus. Acho que, em alguns momentos, vocês me farão falta (mais um do que o outro, penso eu). Mas eu quero mesmo é ficar distante — porque, sim: vocês ainda conseguem me machucar. E sequer entendo por que. Ou melhor: entendo sim. Mas acho que ainda me recuso a acreditar que vocês se recusam a aceitar que, muitas vezes, fazem isso deliberadamente.

Finalizei o terceiro semestre do curso. Faltam 5 agora. Fiz oito disciplinas, e achei que seria engolida. Mas acabei, eu, engolindo tudo (por bem ou por mal): quatro 10, e a nota mais baixa foi 9. Grandes…

Tive muitas experiências boas na universidade, e outras nem tanto. Aprendi e descobri novas possibilidades, e passei por apertos. Alguns eu quero esquecer; e, ainda que sejam péssimos, outros prefiro que fiquem vivos na memória.

Mas a confusão e a incerteza estão tomando conta de mim novamente…

Eu quero dar aulas?! Eu não sei!… Não sei mesmo. Não foram poucas as vezes que, nos últimos dois meses, pelo menos, fui acometida por esses pensamentos, de que eu estou no lugar errado, de novo fora do “meu caminho”.

E que “caminho” é esse?! Porque eu não faço a mínima ideia…

Porém, em geral, eu estou feliz e satisfeita com o que venho aprendendo.

E eu tenho planos. Eu acho. Não quero continuar estudando? Fazer mestrado, e daí doutorado?!

Sim, com certeza. Mas e depois?!

Eu não deveria parar de estudar agora. Caso contrário, nem terei turma para a qual voltar depois. E será que eu voltaria?

Mas preciso trabalhar mais. Precisamos de mais dinheiro. Ele está saindo de casa, e as coisas ficarão ainda mais difíceis.

Tá tudo fora do lugar. E eu não sei nem por onde começar…

Sinto que uma recaída se aproxima rapidamente, e eu realmente não queria isso…

2016 foi um ano muito errado. E os próximos não me parecem muito melhores.

Por que mesmo é que a gente deve seguir lutando?!

“(…) If I could start again

a million miles away

I would keep myself

I would find a way…”

RM

 

Sábado, 12 de março de 2016, aproximadamente 11pm

” — Não consegui tirar esse…
— Vou ver com ela.
(…) É… É que pra você ter noção, quando entra na sala puxa até o aro do sutiã. Pode estourar a partezinha da sua orelha”.

Ou algo assim.

“Começamos bem”, pensei.

“RM” era o código no papel. A roupa azul gigante sobrava em todos os lados, e com aqueles sapatinhos daria pra escorregar no chão.

Para inserir o cateter de silicone, o 5o. furo do ano. Ou 6o.? Já perdi as contas; e também já não me encolho mais nas picadas.

Me deito e chegam as duas moças pra me ajeitar. Prendedores, um grande protetor de ouvido… Um “Tá tudo bem?” abafado; “Essa bolinha é pra você se comunicar com a gente; aperte se precisar falar”. Okay.

No teto uma espécie de mural, ou uma foto dividida em paineis; flores brancas com uma folhagem verde ao fundo. Mas não consegui identificar quais eram; estava sem os óculos (“Boas notícias! Estabilizou em 2 graus”).

A máquina é ligada, e eu “escorrego” pra dentro do tubo. Um ar fresco sopra, e logo eu entendo o porquê.

O barulho começa. Barulhos, na verdade. São diferentes, ainda que alguns se repitam de tempos em tempos, e eu penso que poderiam ser usados pra compor uma música eletrônica. E daí me lembro que já tinha visto em algum programa de TV, que em alguns lugares eles tocam música clássica, ou conversam com a pessoa; seria melhor. “Tá aqui minha playlist. Bora fazer a festa”.

Fico impressionada com o quanto estou confortável, mesmo naquela posição. Em pouco tempo já estou familiarizada com cada linha e risco dentro do meu campo de visão; “Eles precisam dar uma limpadinha aqui… Se ao menos tivesse algum texto…”. Haha.

Pelo menos não senti nada quando começaram a injetar o contraste; nem sei quando foi isso, aliás. Mas os sons são repetitivos demais e, conforme o tempo passa e o calor (gerado pela máquina) aumenta, cresce também a sensação claustrofóbica e a paranoia de que de fato meu tragus poderia explodir (“Será que aço cirúrgico puxa?”. Nota mental: trocar essas joias de uma vez).

A mão doi. O nariz começa a coçar. E daí o ouvido…

“Pfff, não vai acontecer nada. Por outro lado… a Lei de Murphy de fato me persegue mesmo… Caralho“. Vejo uma das moças passando e tento não me animar demais, mas suponho que está quase acabando.

Finalmente escorrego pra fora. Mais um “Tudo bem?” abafado, antes que minhas mãos estejam soltas e eu possa tirar o grande protetor.

Pergunto se elas tem que escutar aquilo também, mesmo sabendo que a resposta provavelmente era negativa. “Não, quase nada; vocês tem que usar, porque passa de 85 decibeis, pode ocasionar danos”. Humm… é, pois é.

Calculei 30 minutos, aproximadamente. Não é muito, mas foi o suficiente.

Foi essa a minha primeira? Primeira de algumas? Ou de muitas?!

A inflamação não parece estar cedendo. Nem a fadiga. Muito menos a dor.

Quarta fica pronto o exame do gene. O que me lembra que eu tenho que tentar mudar a data de entrega das ressonâncias; quarta não vai ter gente em casa. É muita sorte que eles entreguem de graça – mas de nada adianta se ninguém puder receber.

“Se pelo menos eu soubesse quando ele volta…”. Mas não sei.

Já não sei de muita coisa mais.

Amianto

… mas poderia se chamar também “Sua trilha sonora”.

 

“Moça, sai da sacada
Você é muito nova pra brincar de morrer
Me diz o que há, o que que a vida aprontou dessa vez

Venha, desce daí
Deixa eu te levar pra um café
Pra conversar, te ouvir e tentar te convencer

Que a vida é como mãe
Que faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais
Pois sabe que faz bem
E a morte é como pai
Que bate na mãe e rouba os filhos do prazer
De brincar como se não houvesse amanhã

Moça, não olha pra baixo
Aí é muito alto pra você se jogar
Vou te ouvir, e tentar te convencer
(Somos programados pra cair)

(…)

Mas tudo bem, nem sempre estamos na melhor

Moço, ninguém é de ferro
Somos programados pra cair

Fragmento 4 – Sobre o efêmero

Aproximadamente 8pm

Eu vi um caminhão atropelar um cachorro. Foi tudo muito rápido — e não só porque estávamos na BR.

Ele o dividiu em dois e as tripas voaram pelo asfalto.

Eu perdi o ar no mesmo instante, e os braços que seguravam o volante tremeram. Pensei que fosse fazer merda, porque meus olhos se embaçaram demais.

Eu não queria sair de casa… Eu estava assistindo a série nova, e…

(… TEPT. Sim.. Em algum nível isso me é familiar.)

A sala cheira a lírios, mas agora a minha cabeça doi. Semana que vem, no máximo, eles se vão também.

A região das minhas órbitas também doi, mas o pior é o choro engasgado que se embola e faz doer a minha garganta.

“Engraçado”: hoje mesmo eu estava pensando, enquanto esperava o sinal fechar (“cara, cê já sabe: se eu tiver que correr pra pegar o ônibus ou pra atravessar a rua, perco ele ou morro atropelada”, como eu repeti, pela milésima vez, um pouco mais tarde — mas antes do resto): os ônibus e os carros passam muito rente ao meio fio. O vento sempre balança meu cachecol. E essa fumaça, que fica impregnada nos cabelos, nos poros e nas roupas, e reaparece em tons de cinza ou preto ao assoar o nariz ou esfregar a pele? A gente morre aos poucos, todos os dias, e mal se dá conta. Mas eu sempre noto — pelo menos isso.

“Você é especial para Deus”

Terça, 10 de novembro. Aproximadamente 9pm

Foto2528[1]

Ainda que eu ande/andasse em ‘trégua”, agora já não aguento mais olhar praquela que me encara quando olho no espelho.

Poucas vezes me senti tão feia, tão caída e tão… gorda (mesmo que isso seja uma constante, não é sempre nesse nível).

Talvez tenha sido isso o que me fez correr (mais rápido) pra academia hoje; há tempos já não consigo mais ir regularmente. A aula de pilates (“pilates… que burguesa”) foi boa, mas agora minhas costas doem — pra variar.

Adicione à isso, é claro, um bom tanto de tensão.

A estranheza não se resume ao que eu vejo por fora, naturalmente; é possível que eu não esteja mais feia ou mais gorda do que o “normal”. Mas, ao mesmo tempo, resume tudo.

E a insatisfação vem em um momento que eu produzo tanto!… Vai entender.

Que bosta; eu queria descansar. E eu não vou poder fazer isso tão cedo, o que só me lembra das viagens que eu não vou poder realizar, das pessoas que não vou poder ver…

No atoleiro o meu corpo — enorme e disforme — afunda (ainda mais).

Decido fazer uma omelete de forno; seria o meu jantar hoje, e o meu almoço amanhã (não está fácil — muito menos barato — pra ninguém).

Ovos têm muitas proteínas, que são importantes para a formação da massa magra; eles dão uma sensação de saciedade, evitando o consumo de mais carboidratos. Começo a abrir os ovos separadamente; eles já estavam há muitos dias na geladeira (já não tenho cozinhado tanto quanto antes), e poderiam estar podres. Percebo que havia deixado alguns pedacinhos de casca se quebrarem junto e, ao tirá-los, outra coisa chama a minha atenção: além do blastodisco bem visível e das calazas nojentinhas, havia um pouco de sangue. No terceiro ovo mais ainda.

“E se eu achasse um, em estádio ainda mais desenvolvido?” (sim, “estádio”; lembro muito da professora frisando isso). Acho que seria um “trauma” muito “útil”.

A massa fica bastante amarelada; parece até que tem corante. Coloco calabresa cortada em pequenos pedaços — meu pai haveria de “reclamar” (por mais que o tomate fosse, pra mim, mais do que suficiente). Mas pretendo mudar isso logo: há meses já me comprometi a iniciar 2016 vegetariana.

Já queria isso há um bom tempo, por N motivos — mas sei agora que, hoje em dia, são todos meus, e sei que vai ser no tempo certo.

A cozinha está uma bagunça, mas a culpa não é minha; de qualquer forma vou também limpando as coisas. Faço a omelete enquanto ponho uma dessas pizzas prontas (horrorosas) no forno e passo o café. Fecho a garrafa térmica — mas ela não fecha direito e eu não me dou conta. “Porra de garrafa!”; o líquido quente e escuro dá um banho na cozinha.

E agora EU tenho que secar…

Vou tirando as coisas da bandeja e uma caixa de chá, de papel, cai numa pocinha de café. Caralho. “Is that all you got? I’ll take your best shot!”.

A impaciência vai crescendo — e a dor também (em todos os sentidos). Ganas de gritar.

Lavo as coisas que se sujaram mais, e percebo que uma pequena caneca — um presente dado à minha mãe, e de extremo mal gosto (na minha opinião por diversos motivos) — tem, na lateral, “Você é especial para Deus”.

Boa. Era SÓ isso que me faltava. Será que se eu fizer piada com isso o diabo vem me buscar mais rápido?!

Ao tentar pegar uma xícara no armário — sempre esse maldito armário — quebro uma lasca da borda de uma caneca. “Caramba!!! Hoje tá difícil!!!”. Não quis gritar um palavrão, mas senti até o bolo da vontade de chorar entupindo a garganta.

Eu já deveria tirar a porra da caneca de lá. Tenho certeza de que eu vou esquecer, e serei a primeira a beber naquilo — que vai fazer sangrar a minha boca, me causando um novo surto.

As vezes eu acho que é disso mesmo que eu preciso, de tempos em tempos: sangrar. Pra expurgar, talvez.

Como pode uma pessoa ser tão desastrada?! Tão desencaixada, errada, confusa?! “Você é doente! É inconstante!”.

Não; ninguém me falou isso (em voz alta). Mas eu posso imaginar (e sentir — ainda que não tenha sido pra mim) o quanto é dificil.

Vou dormir, antes que a raiva comece a me dar azia e me consuma por dentro. Mas, pelo menos, eu sou especial para Deus, não sou?!

Dois Dorflex. Boa noite.

——-

Hoje eu senti muita sede. Mas nem mil litros de água poderiam aplacá-la.

Quero colo. Diminuiu ainda mais o número de pessoas com quem posso falar.

Mas, ao mesmo tempo, quero que muitos se danem.

(Novo low altamente ilustrativo: não consigo achar uma das minhas meias; vou dormir com uma só)

Divagação 5: breve comentário sobre encontros e desencontros

Meados de setembro, 2015

“Como um gatilho sem disparar
você invade mais um lugar onde eu não vou…”

Uma vez ela me disse que poderiam se passar vinte anos e, ainda assim, eu provavelmente não teria controle da minha reação se eu o visse; ela disse que meu coração, assim como o de tantas outras pessoas, em tantas outras situações (similares ou não), provavelmente iria acelerar, sem que eu pudesse impedir isso.

As vezes eu tenho a sensação de que, ao dobrar esta ou aquela esquina, um dia vamos dar bem de cara um com o outro. Mas as vezes tenho a sensação de que não nos veremos nunca mais.

E eu não faço a mínima ideia de qual perspectiva me “assusta” mais.

(… ainda que eu saiba qual eu mais gostaria — ou, no mínimo, preferiria — que acontecesse.)

Sonhos 3, 4 e 5

16/08/2015, domingo

Sonho 3 (há quase 2 anos)

Um quarto com várias camas. Ele me pede pra sair da dele e eu vou pra outra, e logo um cara* (?) vem conversar comigo. Mas eu não queria nada com ele. Observo de longe uma menina chegar na cama dele. Ela é bonita, pequena, magra, tem um corpo bonito, e tem cabelos longos, lisos e vermelhos*. Está vestindo uma camisola preta. Eles começam a se beijar e se deitam sob as cobertas.

Naquele dia eu estava lá; era um domingo, acho. Acordei por volta das 6, e não consegui dormir mais — na verdade não quis, pois o medo foi de voltar pro sonho. Levantei, fui comer, sentei na sua poltrona e tentei ler (um livro que até hoje está inacabado haha; acho que meu subconsciente já sabia que, pelo jeito, essa realmente não será minha profissão). Estava quase caindo no sono, mas não queria mais me deitar. Ele acordou e acho que viu meus pés balançando no braço da cadeira; perguntou se estava tudo bem, e eu menti disse que sim.

* Aparentemente ele já tinha feito isso antes (na vida “real”), e eu não notei. Foi ele quem me avisou.

** Acho que o sonho aconteceu bem antes, quando as coisas começaram a ruir; talvez até tenha sido esse sonho um marco inicial. Mas enfim: um dia após o Natal, fios de cabelo vermelho na cama (que eu sei bem que nem eram do mesmo tom dos cabelos da guria do sonho, mas vai que há algo como “coincidência”?!) e uma briga; será que é impossível entender os motivos para a dor dx outrx? Existem limites?

Sonho 4 (este ano?)

Estou no meu banheiro. Sinto alguém me abraçar por trás; as mãos envolvem a minha cintura, me apertam, e a cabeça se encaixa no meu ombro*. Me sinto tão bem!, e me lembro que quase pude sentir o toque fisicamente. Ele me fala algo como “eu (ainda) te amo”. Talvez tenha falado também “mas eu tenho que ir”. Já naquele abraço aquilo tudo me cortou o coração. Aliás: já naquele sonho (que eu sabia ser um sonho, porque já tinha noção de que era impossível demais) aquilo tudo me cortou o coração.

* 08 de dezembro de 2013, domingo de noite, após a pior peça de teatro deste universo, arrumando meu cabelo no espelho do guarda-roupa: ele me abraça e fica nos olhando no espelho, e, depois de falar que o meu cabelo cheirava bem (é, acho que foi nesse dia), fala que de fato (como tinham dito minhas amigas) nós combinamos (combinávamos). 

Sonho 5 (15/08, nesta última noite*)

Estou em um prédio movimentado; é lá que eu moro, em um apartamento com mais pessoas. Já no saguão vejo que, por um motivo absurdo (que não vem ao caso) estou com calçados péssimos para andar (e eu teria que andar muito), então resolvo voltar para trocar, mas, ao entrar no elevador, não lembro do andar.

Aperto um que eu achava ser o certo e as portas se abrem (diretamente) no apartamento deles (?!). E lá estão os três e mais alguns amigos. Ele fica feliz em me ver, acena, e uma delas também, com o seu sorriso característico. A outra delas (“A” haha) está deitada no chão, e dá um sorriso amarelo ao me ver — mas não era ela; era a outra menina, que eu já vi tantas vezes no Facebook e vi quarta passada no “maldito” programa**. Enfim… Eles se levantam, me cumprimentam, e parecem sinceramente felizes com a minha presença, mas eu só consigo pensar em descobrir um jeito de sair de lá, daquela situação. Explico o que tinha que fazer (?), mas eles vão me acompanhando. Escuto ele dizendo, em tom bem-humorado, algo como “gosto muito dela mas NÃO. TEM. COMO. DAR. CERTO. hahahahha”.***

* Já sei por que: ontem fui assistir uma apresentação em uma rua próxima e tive que deixar o carro no mesmo lugar “de sempre”. Nem sei se continuam lá; dessa vez isso não me deixou inquieta, não me fez suar frio, e nem cutucou aquelas borboletas na barriga (como acontecia até algum tempo atrás). Mas gerou algum desconforto.

** Por que mesmo que eu assisti aquilo? E por que mesmo quero continuar assistindo?! Será que é uma tentativa desesperada de curar algumas feridas? Até sei o motivo da “confusão”: na minha cabeça elas são parecidas. E eu sei que elas não são REALMENTE parecidas, mas é que elas têm muitos traços em comum, tipo a altura, o porte físico, a cor dos cabelos e o fato de terem olhos claros. Acho que ele (se é que não a conhece de fato) gostaria dela também.

*** HAHA ¬¬’. (O maldito “haha” virou uma espécie de praga automática incontrolável, que eu não consigo evitar, a menos que me policie muito. Ele atenua até as falas mais tensas — mas será que eu deveria mesmo tentar atenuar certas situações?!)

 *   *   * 

Vez ou outra certas memórias voltam (ou certos sonhos acontecem), e eu não posso evitar que façam alguns estragos.

Não sei se vou ficar “BEM” (sim, em maiúsculas), mas, hoje em dia, já estou muito melhor. De fato. 

Ainda que em alguns momentos (como agora, mas por motivos beeeem diversos) eu sinta que sou um poço de raiva (não “ódio”; “raiva”). Sinto que eu tenho um buraco negro aqui dentro, que de tempos em tempos faz desaparecer as coisas boas e fermenta essa raiva (que vai se acumulando). É isso que, as vezes, me cega e me deixa a ponto de explodir.

Talvez isso seja necessário também: me permitir sentir raiva e mágoa, pra não mais guardar — ou pra guardar só aquelas coisas boas.

A saudade é o tipo de coisa que se guarda e que não morre, assim como certos sentimentos — tal qual a admiração e o amor (estes estão bem vivos, sim, senhor).

Acho (espero?) que ainda vai levar um tempo até acontecer um outro sonho como esses. 

Já as memórias voltam bem mais (ainda que hoje em menor frequência); tô lidando relativamente bem com elas.

Mas hoje eu queria um abraço; hoje tá difícil.

(no parque hoje uma menina passou com uma camiseta que dizia “you make me happy when skies are gray”; não lembrei de imediato, mas comecei a cantarolar o trecho e logo me veio. Foi um outro que me mandou essa música uma vez, mas acho que por causa disso tudo mais uma vez foi de você que eu lembrei. Os próximos cem metros foram pensando nisso e em você.

“…please don’t take my sunshine away”)