A Caverna

“(…) Cipriano Algor não ficou mais de três minutos, tinha inteligência bastante para não precisar que lhe dissessem que o importante não era estar ali parado, com rezos ou sem rezos, a olhar uma sepultura, o importante foi ter vindo, o importante é o caminho que se fez, a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou, pior ainda, é porque esperas que te observem. Comparando com a velocidade instantânea do pensamento, que segue em linha reta até quando parece ter perdido o norte, cremo-lo porque não percebemos que ele, ao correr numa direcção, está a avançar em todas as direcções, comparando, dizíamos, a pobre da palavra está sempre a precisar de pedir licença a um pé para fazer andar o outro, e mesmo assim tropeça constantemente, duvida, entretém-se a dar voltas a um adjectivo, a um tempo verbal que lhe surgiu sem se fazer anunciar pelo sujeito, (…)”.

A Caverna. SARAMAGO, José, 2000, p. 45-46 (grifo próprio).

Olhos vermelhos

24/02, aprox. 10am:

“Os velhos olhos vermelhos voltaram(…)”.

Me causa até uma afliçãozinha que essa música seja da Capital Inicial. Porque a letra não é tão bosta assim. E é bem relatable.

As minhas dores é que voltaram, na verdade.

Não que elas tenham me deixado de fato; em alguns dias elas se esgueiram pra fora do buraco, onde consigo mantê-las relativamente isoladas na maior parte do tempo.

O que acontece é que nessas férias elas tiraram férias do buraco também.

Ficar parada e quietinha é bom. Eu gosto demais disso. E passo o ano inteiro sentindo falta, porque tudo é caótico e “entulhado”.

Mas, quando faço isso, elas tomam conta de mim: quanto mais imóvel, mais dor eu sinto.

Então eu vou dormir, cansada, e, quando acordo no dia seguinte, me sinto mais cansada ainda. Exausta, na verdade.

“Morrer, dormir; não mais. E com o sono — dizem! — extinguir as dores no coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita. Eis uma consumação ardentemente desejável” (Shakespeare).

Eu sei essa citação de cor. Talvez porque eu gostaria muito que ela fosse verdadeira. Ou, quem sabe, porque realmente era até um tempo atrás.

É difícil e “chato” não saber onde repousa a sua paz.

E (muito) doloroso.

Eu não quero tomar remédios o tempo todo. Mas se eu não tomar, pelo menos por ora, os dias ficam mais miseráveis (ainda).

Então eu tomo um analgésico aqui, outro ali, e sinto a hipocondria familiar avançando, passo a passo, pra fora de um outro buraco.

Porque eu sou assim mesmo, toda perfurada por dentro.

Quem sabe é até por isso que sinto dor: sou como uma esponja, cheia de sulcos e reentrâncias, que fica absorvendo diversas coisas ruins.

 

08/03 — 09/03:

Alguma coisa me derrubou. Dor de cabeça, no pescoço, nas costas, fotossensibilidade, dores nas articulações dos joelhos, quadril, punhos e cotovelos, dor no abdômen, perda de apetite, febre, pele sensível (como se tivesse sofrido queimaduras de sol)… E.A.? Gripe? Virose? Dengue? haha.

Pensar que pode ser a última é tão distante que me faz rir. Mas os sintomas batem… 

A última vez que me senti assim foi no começo do ano passado.

Mas, mesmo naquela época, eu não sentia todas essas coisas.

Um copo de água com limão, dois comprimidos analgésicos, e muitas horas de sono… e nada.

Rolei de um lado para o outro, desconfortável e agoniada, tentando reprimir uma crise de ansiedade que parecia avançar rapidamente.

O plano foi encerrado em outubro passado, e ir ao hospital público não está rolando (deveria ter feito isso hoje de manhã, já que não fui pra aula — mas eu não estava nem conseguindo me vestir sozinha).

A pressão vai me sufocando, e as partes do meu corpo parecem peças mal encaixadas de um exoesqueleto. Se eu apenas pudesse tirá-las, uma a uma!…

Que merda; acho que estou mesmo um pouco assustada (haha).

09/03, aprox. 10pm:

Antes de sair para a escola, deu “teto”. Tive que pedir para cancelarem a aula, pra que eu pudesse ir ao PS.

18:37, horário de chegada; 21:15, horário de saída. E nenhuma resposta.

“É bom que você fique atenta, e, se as dores não diminuírem, você volta, faz exames, e fica sob observação”.

Ah, vá.

 

Yeah, this is pretty dumb. However, I wanna be able to keep some sort of “track” of this in the future.

This holiday has become another official watershed moment in my life, and I think — like with so many of the others — there’s no coming back from that.

I’m just so tired of beating my head against the wall…

… and now I see there’s no reason why doing this anymore.

I have always refused to being egotistical like them — and now I’m bound to admit I may have been wrong all along.

 

She’s “gone” as well.

 

 * * * 

“Such a lonely day

and it’s mine

The most loneliest day of my life”

[S.O.A.D.]

Sonho 8 – “A oficina da estiagem”

Não sei como começou, ou não me recordo: sonhos têm dessas. Foi tudo em fast forward, feliz ou infelizmente.

Um novo contato nos levou a uma reaproximação.

Passamos uma noite juntos, mas acho que não conversamos realmente; pelo menos não sobre o que ou como deveríamos. “Amenidades”.

Ainda que essa parte tenha sido (infelizmente) muito rápida no sonho, e que eu não me lembre de detalhes, sinto que foi bom e intenso — como sempre.

As conversas posteriores, pra variar, é que foram defeituosas, precárias, incompletas — ingredientes essenciais para mais um fracasso inevitável.

E assim foi: por algum motivo, uma das conversas azedou rápido demais (nada incomum até aí), e ele se sentiu “””injustiçado””” (por falta de palavra melhor para descrever). Foi então que notei que ele tinha algum controle sobre “mim” (e não (só) metafórica ou figurativamente).

Era uma espécie de acesso remoto, que eu acompanho em tempo real enquanto estou sentada ao computador. Eu posso ver a seleção de trechos, o corta-cola-escreve-reescreve ocorrendo sem que eu possa fazer nada.

De repente, aparece na tela uma animação de um local desértico, de céu azul brilhante e brisa surpreendentemente leve e amena; em segundos, tudo se torna cinza, o vento lufa furiosamente, e se forma uma tempestade de raios.

Vingança. Não sei por que, ou do que.

Com aquela seleção parcial, ele constroi e resconstroi mais uma colcha de retalhos.

Consigo ver o título: “A oficina da estiagem”. Realmente, as palavras não me são de todo estranhas, mas não consigo entender o porquê dessa junção.

Na paisagem da animação, as palavras do texto começam a aparecer talhadas em uma grande rocha; mas ela está de lado, e é difícil enxergar. Conforme a viro na minha direção, consigo ler — mas já não me lembro mais de nenhuma das palavras.

Foi aí que o pesadelo “de dentro” acabou.

Foi massacrante — mais uma vez. Acordei, mas não por completo, e meu coração batia de uma maneira tão retumbante que eu literalmente consegui escutar minha pulsação, vibrando, no meu ouvido externo.

Nos poucos segundos que me separavam do son(h)o e da vigília, percebi que tive uma ideia “luminosa” (prum contexto surreal de pesadelo ela me pareceu boa mesmo): “um corte limpo, vertical, no braço esquerdo”.

Isso ocorre nos 47 do segundo tempo. Perco litros, mas me encontram e me levam correndo pro hospital. Eu sobrevivo.

Eu acordo de fato, desnorteada, e ainda escutando meu coração.

Antes disso eu já estava rolando de um lado pro outro; isso continuou depois, por mais que eu estivesse morrendo de sono.

Era 2:36am, se não me engano.

Ficou uma frase na minha cabeça, por algum motivo. Como se tudo não passasse mesmo de um jogo, eu ainda disse (para… ele? Pra tela? Pra mim?!), antes do fim do pesadelo: “Your move”.

24/02, 15:00: Não faz nem duas horas que eu o vi. Passando por onde já passamos juntos, de mãos dadas, em outra vida ou outro sonho. Mesmo antes de chegar perto, com meu carro “feio e estranho”, eu sabia que era ele. E mesmo até que ele esteja com o cabelo bem maior, o jeito de andar e o de segurar o cigarro continuam os mesmos. Acho que não há porquê negar que meu coração acelerou brevemente, e que eu queria ter visto mais antes de dobrar pra direita. Felizmente, mais uma vez, ele não me viu.

Juliano Pavollini

“Recomeço com um lugar comum: com o passar do tempo, o tempo perde o brilho, massa flutuante, uma ponta aqui e outra lá, entre os vazios. Quanto mais nos afastamos, mais tudo fica igual a tudo. Perdemos senso, nitidez, ângulos; perdemos a fúria. Há quem chame isso de sabedoria. Se nos afastamos ainda mais, olhando para um passado que está em lugar nenhum, mas que nos lanha, queremos morrer, e também isso parece sabedoria. E há os que que se aferram desesperados ao que foram, ou poderiam ter sido — passamos a vida escutando o grito desses loucos. Comigo não acontece nem uma coisa nem outra. Tenho plena consciência de que não consegui ser nada, mas — Clara deve saber — não desisti. E não sou suicida a ponto de fingir esquecimento — há uma caixa de segredos que ficou atrás, e eu gosto dela, mesmo sem compreendê-la. Digamos que não há um só desgraçado que em algum momento da vida não tenha se transformado num pequeno Deus, não tenha pressentido o sopro do controle da vida, do tempo, da história — assim, nas mãos, palpável, uma breve eternidade”.

Juliano Pavollini. TEZZA, Cristovão, 1989, p. 63 (grifo próprio).

Alive

 

December 28th, 2016; around 7pm

 

Why didn’t I post this last year?!

Maybe I was not ready. Or I didn’t feel enough…

As a matter of fact I still don’t.

But it’s been THREE years now… Who knew?!

A LOT separates me from December 28th of 2015. Even more of 2013…

But, yeah, well… I’m alive.

 

 

December 28th, 2015; around 10:30pm

 

Wordpress

 

It’s been two years… Congratulations to me?

 

 

“I was born in a thunderstorm
I grew up overnight
I played alone
I’m playing on my own
I survived

Hey
I wanted everything I never had
Like the love that comes with light
I wore envy and I hated that
But I survived

I had a one-way ticket to a place where all the demons go
Where the wind don’t change
And nothing in the ground can ever grow
No hope, just lies
And you’re taught to cry in your pillow
But I’ll survive

I’m still breathing [4x]
I’m alive [4x]

I found solace in the strangest place
Way in the back of my mind
I saw my life in a stranger’s face
And it was mine

(…)
I had made every single mistake
That you could ever possibly make
I took and I took and I took what you gave
But you never noticed that I was in pain
I knew what I wanted; I went in and got it
Did all the things that you said that I wouldn’t
I told you that I would never be forgotten
And all in spite of you

And I’m still breathing
I’m still breathing
I’m still breathing
I’m still breathing
I’m alive (…)”

Fragmento 7 – Confusão

[Eu preciso escrever. Mas não sei nem bem por onde começar…]

As coisas não vão tão bem, e algumas estão muito fora do lugar.

Aliás, se for pra parar pra pensar local ou globalmente, está tudo errado, e isso também me afeta. E demais. Me sinto uma antena captando tudo isso, e ainda menor e inútil nos meus dramas.

Porém, feliz ou infelizmente, tenho também meus problemas pessoais pra resolver.

Ele finalmente está saindo de casa; nada que não esperássemos. Mas parece que está fazendo tudo que pode para complicar ainda mais nossas vidas.

Me irrita duplamente: primeiro por si só; mas também por ver que suas ações estão me transformando numa pessoa cada vez mais cínica e “esperta” — pra que ele não nos deixe “pra trás”.

Quer dizer: já está deixando.

Mas não vou admitir que nos deixe por baixo — principalmente à ela.

Na verdade, esse tem sido o ano pra endurecer. E, tristemente, pra perder também um pouco da ternura, talvez. E eu não queria isso… juro que não. Tenho feito o que posso pra nadar contra a corrente, mas há horas em que meus braços não aguentam mais, e eu só quero boiar.

Os golpes vão me atingindo, e eu sinto cada-um-deles. Mas alguns deles já nem doem mais.

Eu entendo e aceito melhor agora: eu “perdi” vocês dois, que nunca foram meus. Acho que, em alguns momentos, vocês me farão falta (mais um do que o outro, penso eu). Mas eu quero mesmo é ficar distante — porque, sim: vocês ainda conseguem me machucar. E sequer entendo por que. Ou melhor: entendo sim. Mas acho que ainda me recuso a acreditar que vocês se recusam a aceitar que, muitas vezes, fazem isso deliberadamente.

Finalizei o terceiro semestre do curso. Faltam 5 agora. Fiz oito disciplinas, e achei que seria engolida. Mas acabei, eu, engolindo tudo (por bem ou por mal): quatro 10, e a nota mais baixa foi 9. Grandes…

Tive muitas experiências boas na universidade, e outras nem tanto. Aprendi e descobri novas possibilidades, e passei por apertos. Alguns eu quero esquecer; e, ainda que sejam péssimos, outros prefiro que fiquem vivos na memória.

Mas a confusão e a incerteza estão tomando conta de mim novamente…

Eu quero dar aulas?! Eu não sei!… Não sei mesmo. Não foram poucas as vezes que, nos últimos dois meses, pelo menos, fui acometida por esses pensamentos, de que eu estou no lugar errado, de novo fora do “meu caminho”.

E que “caminho” é esse?! Porque eu não faço a mínima ideia…

Porém, em geral, eu estou feliz e satisfeita com o que venho aprendendo.

E eu tenho planos. Eu acho. Não quero continuar estudando? Fazer mestrado, e daí doutorado?!

Sim, com certeza. Mas e depois?!

Eu não deveria parar de estudar agora. Caso contrário, nem terei turma para a qual voltar depois. E será que eu voltaria?

Mas preciso trabalhar mais. Precisamos de mais dinheiro. Ele está saindo de casa, e as coisas ficarão ainda mais difíceis.

Tá tudo fora do lugar. E eu não sei nem por onde começar…

Sinto que uma recaída se aproxima rapidamente, e eu realmente não queria isso…

2016 foi um ano muito errado. E os próximos não me parecem muito melhores.

Por que mesmo é que a gente deve seguir lutando?!

“(…) If I could start again

a million miles away

I would keep myself

I would find a way…”