A Caverna²

 

Hoje é dia dezessete de maio de dois mil e dezessete. As últimas duas semanas não têm sido leves ou fáceis. 

Me sinto confusa e incapaz de estabelecer certos limites — muitos deles, inclusive, dentro da minha própria mente. 

(Ainda) me sinto como uma prisioneira da minha própria caverna.

Mas eu quero — E VOU — ver a minha luz.

 

(…) Marta disse que se ele tinha pensamentos desses deveria partilhá-los com a filha que ali estava, ao que Cipriano Algor respondeu que falar-lhe dos pensamentos que tinha seria como chover no molhado, porque ela os conhecia tão bem ou melhor do que ele próprio, não palavra a palavra, claro está, como o registro de um gravador, mas no mais profundo e essencial, e então ela disse que, em sua humilde opinião, a realidade era precisamente ao contrário, que de essencial e profundo nada sabia e que muitas das palavras que ouvira não passavam de cortinas de fumo, circunstância por outro lado nada estranhável porque as palavras, muitas vezes, só para isso servem, mas há pior ainda, que é quando elas se calam de todo e se convertem num muro de silêncio compacto, diante desse muro não sabe uma pessoa o que há-de fazer, Ontem a noite fiquei aqui à sua espera, ao cabo de uma hora o Marçal foi para a cama, e eu esperando, esperando, enquanto o meu senhor pai andava a passear com o cão lá não sei por onde, Por aí, Claro, pelo campo, realmente não há nada mais agradável do que andar pelo campo à noite, sem ver onde estamos a pôr os pés, Devias ter-te deitado, Foi o que acabei por fazer, naturalmente, antes que me transformasse em estátua, Então está tudo certo, não se fala mais no assunto, Não está tudo certo, não senhor, Porquê, Porque o pai me roubou o que eu mais desejava naquele momento, E que era, Vê-lo voltar, apenas isso, vê-lo voltar, Um dia compreenderás, Espero bem que sim, mas não com palavras, por favor, estou farta de palavras. Os olhos de Marta brilhavam rasos de água, (…).

A Caverna. SARAMAGO, José, 2000, p. 266 (grifo próprio).

 

Juliano Pavollini

“Recomeço com um lugar comum: com o passar do tempo, o tempo perde o brilho, massa flutuante, uma ponta aqui e outra lá, entre os vazios. Quanto mais nos afastamos, mais tudo fica igual a tudo. Perdemos senso, nitidez, ângulos; perdemos a fúria. Há quem chame isso de sabedoria. Se nos afastamos ainda mais, olhando para um passado que está em lugar nenhum, mas que nos lanha, queremos morrer, e também isso parece sabedoria. E há os que que se aferram desesperados ao que foram, ou poderiam ter sido — passamos a vida escutando o grito desses loucos. Comigo não acontece nem uma coisa nem outra. Tenho plena consciência de que não consegui ser nada, mas — Clara deve saber — não desisti. E não sou suicida a ponto de fingir esquecimento — há uma caixa de segredos que ficou atrás, e eu gosto dela, mesmo sem compreendê-la. Digamos que não há um só desgraçado que em algum momento da vida não tenha se transformado num pequeno Deus, não tenha pressentido o sopro do controle da vida, do tempo, da história — assim, nas mãos, palpável, uma breve eternidade”.

Juliano Pavollini. TEZZA, Cristovão, 1989, p. 63 (grifo próprio).