The revolution will not be televised

 

Noite de 22 de novembro.

 

5 minutos.

Lugar certo, na hora errada…?

“Vai bater em mulher? Vai bater em mulher?!”

“Vou! Vou bater em mulher!!!”

Poderia ter sido eu; eu também estava no caminho. Poderia ter sido a minha irmã, a professora, a outra menina… Mas foi ela.

Fomos todas nós.

Ele não bateu nela, mas, de alguma forma, ela foi bastante agredida.

E nós todas também.

Eles nos agrediram; a nós todos. Também.

Isso tudo ainda me angustia muito, e eu não sei se vai passar. As noites tem sido mais mal dormidas que o “comum”.

 

A vida é mesmo feita de momentos. E esse vai ficar gravado na nossa memória, pra sempre.

Eu não vou esquecer — e nem quero.

(Firme!)

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Ao lado meu

Eu já estou sentindo aquele típico nó na garganta, que logo tranca meu nariz e meu coração.

Me lembrei agora que foi nesse mesmo sofá, onde estou agora, que você sentou ao lado meu.

A manhã era fria, e eu te peguei na universidade. Ia te mostrar uns fósseis, mas acabei me esquecendo de levar a chave do laboratório… Acabou que de lá viemos para cá, pra matar um tempo.

Você sentou na ponta da esquerda, e eu sentei no lugar do meio. Meu joelho doía, então estava com uma bolsa de gel fria, e as pernas em cima do seu colo.

Você me abraçou, e aquele foi o melhor presente de aniversário que eu poderia ter recebido — ainda que você não soubesse antes que era naquele dia (teria feito diferença?).

O momento não durou muito, infelizmente; logo tivemos que sair. Mas durou o suficiente pra ficar pra sempre na minha memória — ou melhor: para se juntar à todas as outras.

Naquela época mesmo as coisas mais insignificantes rapidamente se preencheram de sentido e valor — ao ponto de, até hoje, tantos signos me remeterem às mesmas imagens mentais.

Enfim… Não sei se fui enfática o bastante, mas fui grata. Sou, até hoje.

E esse episódio já tem um pouco mais de três anos…

Acho que cada momento tem mesmo um começo, um meio, e uma data de validade (que nos é) misteriosa, que marca o inevitável fim.

Memórias que não voltam mais

 

Old post

 

E eis que eu deparo com isso. A intenção é mesmo que voltemos para o passado, e foi o que aconteceu comigo.

Ainda que as memórias hoje estejam, em alguns pontos mais, outros menos, cobertas por certa névoa, eu me lembro.

Não há como (ou por quê) esquecer.

Em um dos comentários, um velho amigo (?) postou:

Shel Silverstein quote

E agora eu já não sei se ele era/é clarividente, ou se todas as histórias são mesmo assim.

Acho que o começo e o meio foram mesmo felizes; do fim eu ainda venho tentando esquecer.

Pássaro azul

 

+5

21 de março, segunda, aproximadamente 10:30pm

 

Há quase três anos comprei os lápis pastel.

Uns três tons de azul, mais um amarelo, um bege e um branco.

Tinha um propósito: queria desenhar um pássaro azul sobre um fundo preto, com uma gaiola ao lado, que imitasse a estrutura de uma caixa torácica.

Eu não sei desenhar pássaros.

Mas eu ia aprender.

Não deu tempo (até então).

RM

 

Sábado, 12 de março de 2016, aproximadamente 11pm

” — Não consegui tirar esse…
— Vou ver com ela.
(…) É… É que pra você ter noção, quando entra na sala puxa até o aro do sutiã. Pode estourar a partezinha da sua orelha”.

Ou algo assim.

“Começamos bem”, pensei.

“RM” era o código no papel. A roupa azul gigante sobrava em todos os lados, e com aqueles sapatinhos daria pra escorregar no chão.

Para inserir o cateter de silicone, o 5o. furo do ano. Ou 6o.? Já perdi as contas; e também já não me encolho mais nas picadas.

Me deito e chegam as duas moças pra me ajeitar. Prendedores, um grande protetor de ouvido… Um “Tá tudo bem?” abafado; “Essa bolinha é pra você se comunicar com a gente; aperte se precisar falar”. Okay.

No teto uma espécie de mural, ou uma foto dividida em paineis; flores brancas com uma folhagem verde ao fundo. Mas não consegui identificar quais eram; estava sem os óculos (“Boas notícias! Estabilizou em 2 graus”).

A máquina é ligada, e eu “escorrego” pra dentro do tubo. Um ar fresco sopra, e logo eu entendo o porquê.

O barulho começa. Barulhos, na verdade. São diferentes, ainda que alguns se repitam de tempos em tempos, e eu penso que poderiam ser usados pra compor uma música eletrônica. E daí me lembro que já tinha visto em algum programa de TV, que em alguns lugares eles tocam música clássica, ou conversam com a pessoa; seria melhor. “Tá aqui minha playlist. Bora fazer a festa”.

Fico impressionada com o quanto estou confortável, mesmo naquela posição. Em pouco tempo já estou familiarizada com cada linha e risco dentro do meu campo de visão; “Eles precisam dar uma limpadinha aqui… Se ao menos tivesse algum texto…”. Haha.

Pelo menos não senti nada quando começaram a injetar o contraste; nem sei quando foi isso, aliás. Mas os sons são repetitivos demais e, conforme o tempo passa e o calor (gerado pela máquina) aumenta, cresce também a sensação claustrofóbica e a paranoia de que de fato meu tragus poderia explodir (“Será que aço cirúrgico puxa?”. Nota mental: trocar essas joias de uma vez).

A mão doi. O nariz começa a coçar. E daí o ouvido…

“Pfff, não vai acontecer nada. Por outro lado… a Lei de Murphy de fato me persegue mesmo… Caralho“. Vejo uma das moças passando e tento não me animar demais, mas suponho que está quase acabando.

Finalmente escorrego pra fora. Mais um “Tudo bem?” abafado, antes que minhas mãos estejam soltas e eu possa tirar o grande protetor.

Pergunto se elas tem que escutar aquilo também, mesmo sabendo que a resposta provavelmente era negativa. “Não, quase nada; vocês tem que usar, porque passa de 85 decibeis, pode ocasionar danos”. Humm… é, pois é.

Calculei 30 minutos, aproximadamente. Não é muito, mas foi o suficiente.

Foi essa a minha primeira? Primeira de algumas? Ou de muitas?!

A inflamação não parece estar cedendo. Nem a fadiga. Muito menos a dor.

Quarta fica pronto o exame do gene. O que me lembra que eu tenho que tentar mudar a data de entrega das ressonâncias; quarta não vai ter gente em casa. É muita sorte que eles entreguem de graça – mas de nada adianta se ninguém puder receber.

“Se pelo menos eu soubesse quando ele volta…”. Mas não sei.

Já não sei de muita coisa mais.

Orquídeas

 

19 de janeiro de 2016, terça-feira, aproximadamente 07:39am

Vocês não tem viço. Sinto muito, mas não mesmo.

Se fossem uma pessoa, seriam provavelmente daquelas que teriam que desenvolver outras habilidades, para “sobreviver socialmente”. Seriam o engraçadão, a inteligente, a Miss Simpatia, ou o amigo de todas as horas.

Ainda assim, pelo menos três meses depois, cá está o vaso, ainda florido, como se fosse um sobrevivente do cotidiano dando seu testemunho.

Vocês, que deveriam ter sido um presente mas foram preteridas, justamente por causa dessa “falta de vida”. Mas falta como, se ainda estão cá quase todas, e as que ainda estão parecem praticamente intactas?

Ainda agora lhes toquei de novo, pra me certificar de que são mesmo de verdade.

“De verdade”.

De verdade vocês obviamente são, ainda que fossem de plástico ou de qualquer outro material.

Mas não; é de matéria orgânica que vocês são feitas. E se hoje mesmo eu lhes “dissecasse” para observar suas estruturas em um microscópio, eu veria as paredes de suas células aqui e ali (será que eu me lembraria dos cortes exatos a se fazer? Já se passaram mais de dois anos).

Dizer que vocês são prova viva do que a resistência é talvez seja um exagero; mas mentira (ou inverdade, se preferirem), não.

Quando penso em vocês, me lembro de, no mínimo, duas pessoas — uma delas muito próxima (e a outra não tão próxima, mas muito importante também).

E penso ainda nas variedades e cores e tamanhos e formas que orquídeas podem ter, e… acabo ficando com dó de vocês. Sinceramente. No entanto (como eu já disse antes), vocês continuam aqui, e é com vocês que eu me depararei amanhã e depois.

Não sei por qual ou quais motivos acabei divagando tanto; queria escrever sobre vocês há algum tempo, e me sinto mal pelo fato de que o texto resultante acabou sendo tão pobre e vago.

Perdoem a minha falta de foco; a minha cabeça anda a mil. Mas mesmo assim vocês foram relevantes o bastante para me fazer sentar e escrever — se é que a intenção vale alguma coisa.

 

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Fragmento 4 – Sobre o efêmero

Aproximadamente 8pm

Eu vi um caminhão atropelar um cachorro. Foi tudo muito rápido — e não só porque estávamos na BR.

Ele o dividiu em dois e as tripas voaram pelo asfalto.

Eu perdi o ar no mesmo instante, e os braços que seguravam o volante tremeram. Pensei que fosse fazer merda, porque meus olhos se embaçaram demais.

Eu não queria sair de casa… Eu estava assistindo a série nova, e…

(… TEPT. Sim.. Em algum nível isso me é familiar.)

A sala cheira a lírios, mas agora a minha cabeça doi. Semana que vem, no máximo, eles se vão também.

A região das minhas órbitas também doi, mas o pior é o choro engasgado que se embola e faz doer a minha garganta.

“Engraçado”: hoje mesmo eu estava pensando, enquanto esperava o sinal fechar (“cara, cê já sabe: se eu tiver que correr pra pegar o ônibus ou pra atravessar a rua, perco ele ou morro atropelada”, como eu repeti, pela milésima vez, um pouco mais tarde — mas antes do resto): os ônibus e os carros passam muito rente ao meio fio. O vento sempre balança meu cachecol. E essa fumaça, que fica impregnada nos cabelos, nos poros e nas roupas, e reaparece em tons de cinza ou preto ao assoar o nariz ou esfregar a pele? A gente morre aos poucos, todos os dias, e mal se dá conta. Mas eu sempre noto — pelo menos isso.

Stabat Mater

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Quinta, 15 de outubro de 2015, mais cedo:

“O Stabat Mater (latim para Estava a mãe) é uma prece ou, mais precisamente, uma sequentia católica do século XIII.

Há dois hinos que são geralmente chamados de Stabat Mater: um deles é conhecido como Stabat Mater Dolorosa (sobre as Dores de Maria), e o outro, chamado Stabat Mater Speciosa, que, de maneira alegre, se refere ao nascimento de Jesus. A expressão Stabat Mater, porém, é mais utilizada para o primeiro caso – um hino do século XIII, em honra a Maria, e atribuído ao franciscano Jacopone da Todi ou ao papa Inocêncio III.”

Wikipédia

Algumas músicas já tinham sido apresentadas, e a primeira delas foi no saguão de entrada; inesperado.

O auditório da Reitoria é simples, e similar a muitos outros: duas entradas laterais, dois corredores dos lados da seção central, e o palco, um meio círculo, com duas pequenas escadas nos lados. Nele um piano de cauda, uma pequena caixa de bateria, e os holofotes, que o inundavam de rosa e azul.

Quase desnecessários, diga-se de passagem; eu poderia ter imaginado a iluminação sozinha.

De repente todos os cantores saíram e foram novamente para o saguão. De lá escutamos as primeiras notas de um violoncelo, e as vozes foram entrando aos poucos, como se sopradas por uma brisa leve. Muitas vozes – cada vez mais vozes –, do agudo ao grave, como ondas chegando na areia.

Elas encheram o auditório – primeiro num fluxo lento, mas logo em jatos, que borbulhavam como quando gargarejamos. Parecia água colorida, com os tais tons róseos e azulados, entrelaçando-se como fitas – sensação sinestésica que eu não tinha há tempos (desde você, que carregava em si, normalmente, o verde e o azul – e tons de vermelho, explosivos, em alguns momentos).

Fechei os olhos e me senti sozinha, mas não tive medo de me afogar. Era como se eu estivesse à deriva, balançando de um lado para o outro ao sabor daquela maré.

Vez ou outra a intensidade aumentava, e eu podia imaginar a água em borbotões, quebrando vidros imaginários – tais quais os de um navio. Sim: aqueles poderiam ser os sons que embalariam em fortes correntes o fim dos tripulantes de um acidente marítimo, ou a trilha sonora de uma cena épica, em que um deus greco-romano ou nórdico clama de novo para si o domínio de todos os mares e oceanos.

Ou ainda: é como se eu estivesse bem no olho de um furacão – ou melhor, de uma tromba d’água – composto por todas aquelas vozes, que nos abraçavam apertado, e em diferentes tempos compunham a canção.

Aquela não foi a última vez em que estive lá, mas fui transportada de volta para aquele 26 de junho. E a expectativa feliz e ansiosa que tomava conta do meu ser naquele dia deu lugar à solidão e à saudade, que me assolaram e me fizeram reabrir os olhos (onde você está? O que está fazendo agora?!).

Senti a garganta engasgar e o ar faltar, como se a água entrasse em meus pulmões (e forçasse caminho para sair pelos olhos). Nem que eu tivesse querido sair correndo eu teria conseguido; a gravidade havia se redobrado, e me segurava no chão como se eu houvesse me tornado uma âncora.

Consegui fechar os olhos e continuei navegando, mas de súbito – e muito cedo, talvez – a música acabou, tal qual houvessem arrancado a tampa de um ralo. Juro que pude até ouvir a água escoando.

Logo a sala estava novamente cheia, mas tudo estava seco.

Os cantores voltaram ao palco, e cantaram mais uma música ou duas. O regente se dobrou em agradecimentos, e as mãos se cansaram de tanto bater palmas.

Antes que eu me desse conta todos já se levantavam; era hora de ir embora. “Boa noite… obrigada… obrigado…”.

Me levantei também e a água nos levou – ainda que a meu contragosto – de volta para a praia.

Dear future me 4

Another one of those has arrived today. Funny how things go. “Funnier” how some things change while others seem to remain just the same.

It’s nice to actually see that I have moved on from then up to now — even if it was just for a couple of inches.

Perhaps I’ll finally get the courage to do some of the things which I’ve been “postponing” — or, maybe and at least, cutting some knots that still tie me to the ground.

I wonder, however, for how long I’ll still be writing about some topics (which will still be on the letter I’ll write today).

One day at a time, I guess; I just gotta keep on living this A.A. life.

 

November 16th, 2014

Dear Future Me,

I had completely forgotten about this letter.
I was impressed with how brief I was, since I tend to be much more ‘prolix’ than that.

Well, let us see: things have been fucked up, I guess.

Among lots of problems at the new school, I think I am (despite suffering and being so stressed and sick), finally, making some decisions.
I have good chances of going back to school*, and I’m proud to say this is due to my own work.
If that happens, I think a lot will change drastically — and I’m cool with that. I kinda hope for that, actually.

I’m still really lost; I don’t know who I am, and I don’t know who I wanna be. I don’t even know if I wanna “be” at all.
But here I am, still trying, ‘cause I know that’s all I got left.

I have, at last, seen many people’s true colors, and I’m yet figuring out how to deal with that: I have been learning that I’m my first priority.

Therapy continues, and, even though it’s hard sometimes, I’m grateful for the learning process.

I have written a lot this year, and that’s just great. Also, due to that, I have met some people. Nice people, by the way.

And writing has helped me to put things in order in my mind, and has helped me to deal with many feelings (including pain, anger, and how much I still — ugh — miss him. I hope he’s okay, though, and I hope I’ll be fine as well).

That seems to be it… I really expect all is way better next year.

*I’m afraid of seeing him, her… them. But this is MY goal, and they won’t “scare” me anymore.

“Você é especial para Deus”

Terça, 10 de novembro. Aproximadamente 9pm

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Ainda que eu ande/andasse em ‘trégua”, agora já não aguento mais olhar praquela que me encara quando olho no espelho.

Poucas vezes me senti tão feia, tão caída e tão… gorda (mesmo que isso seja uma constante, não é sempre nesse nível).

Talvez tenha sido isso o que me fez correr (mais rápido) pra academia hoje; há tempos já não consigo mais ir regularmente. A aula de pilates (“pilates… que burguesa”) foi boa, mas agora minhas costas doem — pra variar.

Adicione à isso, é claro, um bom tanto de tensão.

A estranheza não se resume ao que eu vejo por fora, naturalmente; é possível que eu não esteja mais feia ou mais gorda do que o “normal”. Mas, ao mesmo tempo, resume tudo.

E a insatisfação vem em um momento que eu produzo tanto!… Vai entender.

Que bosta; eu queria descansar. E eu não vou poder fazer isso tão cedo, o que só me lembra das viagens que eu não vou poder realizar, das pessoas que não vou poder ver…

No atoleiro o meu corpo — enorme e disforme — afunda (ainda mais).

Decido fazer uma omelete de forno; seria o meu jantar hoje, e o meu almoço amanhã (não está fácil — muito menos barato — pra ninguém).

Ovos têm muitas proteínas, que são importantes para a formação da massa magra; eles dão uma sensação de saciedade, evitando o consumo de mais carboidratos. Começo a abrir os ovos separadamente; eles já estavam há muitos dias na geladeira (já não tenho cozinhado tanto quanto antes), e poderiam estar podres. Percebo que havia deixado alguns pedacinhos de casca se quebrarem junto e, ao tirá-los, outra coisa chama a minha atenção: além do blastodisco bem visível e das calazas nojentinhas, havia um pouco de sangue. No terceiro ovo mais ainda.

“E se eu achasse um, em estádio ainda mais desenvolvido?” (sim, “estádio”; lembro muito da professora frisando isso). Acho que seria um “trauma” muito “útil”.

A massa fica bastante amarelada; parece até que tem corante. Coloco calabresa cortada em pequenos pedaços — meu pai haveria de “reclamar” (por mais que o tomate fosse, pra mim, mais do que suficiente). Mas pretendo mudar isso logo: há meses já me comprometi a iniciar 2016 vegetariana.

Já queria isso há um bom tempo, por N motivos — mas sei agora que, hoje em dia, são todos meus, e sei que vai ser no tempo certo.

A cozinha está uma bagunça, mas a culpa não é minha; de qualquer forma vou também limpando as coisas. Faço a omelete enquanto ponho uma dessas pizzas prontas (horrorosas) no forno e passo o café. Fecho a garrafa térmica — mas ela não fecha direito e eu não me dou conta. “Porra de garrafa!”; o líquido quente e escuro dá um banho na cozinha.

E agora EU tenho que secar…

Vou tirando as coisas da bandeja e uma caixa de chá, de papel, cai numa pocinha de café. Caralho. “Is that all you got? I’ll take your best shot!”.

A impaciência vai crescendo — e a dor também (em todos os sentidos). Ganas de gritar.

Lavo as coisas que se sujaram mais, e percebo que uma pequena caneca — um presente dado à minha mãe, e de extremo mal gosto (na minha opinião por diversos motivos) — tem, na lateral, “Você é especial para Deus”.

Boa. Era SÓ isso que me faltava. Será que se eu fizer piada com isso o diabo vem me buscar mais rápido?!

Ao tentar pegar uma xícara no armário — sempre esse maldito armário — quebro uma lasca da borda de uma caneca. “Caramba!!! Hoje tá difícil!!!”. Não quis gritar um palavrão, mas senti até o bolo da vontade de chorar entupindo a garganta.

Eu já deveria tirar a porra da caneca de lá. Tenho certeza de que eu vou esquecer, e serei a primeira a beber naquilo — que vai fazer sangrar a minha boca, me causando um novo surto.

As vezes eu acho que é disso mesmo que eu preciso, de tempos em tempos: sangrar. Pra expurgar, talvez.

Como pode uma pessoa ser tão desastrada?! Tão desencaixada, errada, confusa?! “Você é doente! É inconstante!”.

Não; ninguém me falou isso (em voz alta). Mas eu posso imaginar (e sentir — ainda que não tenha sido pra mim) o quanto é dificil.

Vou dormir, antes que a raiva comece a me dar azia e me consuma por dentro. Mas, pelo menos, eu sou especial para Deus, não sou?!

Dois Dorflex. Boa noite.

——-

Hoje eu senti muita sede. Mas nem mil litros de água poderiam aplacá-la.

Quero colo. Diminuiu ainda mais o número de pessoas com quem posso falar.

Mas, ao mesmo tempo, quero que muitos se danem.

(Novo low altamente ilustrativo: não consigo achar uma das minhas meias; vou dormir com uma só)