Neste universo

21:23, Qui 30/04/2015

“If you don’t mind leave, leave

And please yourself at the same time leave, leave

Let go of my hand

You said what you came to now leave, leave…”

[“Leave” – Glen Hansard]  – este conto foi inspirado nesta música.  

*   *   *

Eu vejo a tua mão se soltando lentamente da minha – quase como um efeito slow motion palpável. Mas não; é que na verdade a gente ainda se segurava como podia, e quando viu os dedos se desentrelaçarem o cérebro registrou mal e incredulamente o movimento.

Esta teria sido como uma daquelas cenas em que alguém, à beira de um precipício, se segura até o último de sua força na mão de outra pessoa, a qual, mesmo fazendo um esforço sobre-humano, não consegue mais resistir.

Você não conseguiu mais.

Eu, por mim (e por você! Por ‘nós’!), acho que teria suportado mais um pouco, mas penso que não tardaria muito até que meus dedos adormecessem – e eu perdesse o controle sobre eles, consequentemente.

Te vi se afastando de mim.

Ora era você em queda livre, ora eu, como numa daquelas imagens de ilusão de ótica difíceis de decifrar.

Creio que (ainda que por alguns momentos) nos vi pairar (ainda que separadamente), e julguei (ainda que brevemente) que houvesse salvação para nós.

Separados, talvez. Mas juntos não.

Foi difícil dizer ‘adeus’; acho que sempre é, principalmente quando você entende que um ‘adeus’ não é um mero ‘tchau’, ou um ‘até depois’. É definitivo, como qualquer outro fim.

Em um multiverso diverso acho que tentamos novamente, enquanto noutro a despedida aconteceu até mais cedo. Noutro eu te salvei da queda. E em outro você me salvou. Em outro nem chegamos perto da beirada (talvez noutro nós chegamos, mas vencemos a força da gravidade).

Em um outro ainda, quem sabe, sequer nos conhecemos. Com precipício ou sem. Sem começo ou fim.

Mas é só esse que conhecemos; pairamos (sabe-se lá se não à deriva!) na (sur)realidade deste universo.

Não consigo tirar esta imagem da cabeça. Tivesse eu estendido mais uma mão!… Tivesse você!…

Do chão não hemos de passar (dizem). Quem sabe algo apare a nossa queda.

Você não precisa fazer isso por mim, caso seja eu que venha a desabar; mas se quiser eu desço até onde for (seja lá onde for!) pra te buscar, caso seja você. Te ponho em pé novamente, limpo de ti a poeira e, te olhando fundo nos olhos, te proponho que façamos um pacto: juntos ou separados, vamos prometer nos manter longe da beirada.

Chega de cair nessa vida (exceto se for por amor) – ainda que a gravidade nos puxe violentamente para baixo.

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Bala perdida

21:50, Qui 26/03/2015

Saio em disparada e atravesso tudo o que há no caminho. Paredes, pessoas, água, fogo, terra e ar. Me movimento tão rapidamente que alguns e algumas mal me veem passar.

Não era a minha intenção, realmente. Mas estou ali, seguindo em frente, sem sequer ter como parar.

Nem sei se deveria querer isso. Não sei nem se de fato tenho querer.

Você me vê chegando e o teu coração acelera.

A adrenalina é liberada, mas você estanca, sem reação.

O sangue, que ora corre e pulsa nas tuas artérias e veias, é o que agora tinge a tua camisa branca de vivo vermelho.

Me desculpa; não acho que deveria ser exatamente assim.

Mas é no teu peito que eu vou repousar.

Tudo bem se você cair agora; o chão há de aparar a tua queda.

Agora faço parte de ti; somos um.

Me desculpe também se te faço mais fraco; não foi uma escolha, e, como disse, nem acho que era pra ser. Porém, agora assim será. Assim já é.

Não era você o meu alvo; ainda assim te acertei. Acertei e aceitei. Me aceita também?

Aceita essa sorte incerta – talvez seja melhor assim.

Você me parou; obrigada. É possível que eu vá com você a partir de agora, não importa para onde você há for.

Tentarei não incomodar (ainda mais), mas acho que a lembrança e a marca serão eternas.

No entanto ficarei aqui, quietinha e imóvel, se você me deixar ficar. Essa jornada involuntária já me bastou; agora eu prefiro ficar cravada na tua carne.

Se eu fui uma bala perdida, acho que agora me achei em ti.

The darkest hour

0:41, Dom 16/11/2014

“The darkest hour is just before the dawn”.

‘Não fale com os mortos.

Nunca te ensinaram que um dia eles podem responder?’

Ele abriu a porta, e continuamos a conversa no corredor. Ela saiu, andou um pouco, veio caminhar por entre as minhas pernas, e se esfregar na minha calça. Deixou em mim muitos fios de seu pelo branco.

Ele ficou com “ciúmes”, e disse que ao meu redor devia haver espíritos bons. Meu olhar perdido fez com que ele respondesse “Você não sabia? Gatos não se aproximam quando os espíritos são ruins”.

Não acreditei, e nem deixei de acreditar. Um silêncio muito calmo e resignado ecoou dentro de mim.
É isso que chamam de ‘agnosticismo’, não? Ótimo. Era só mais esse rótulo que me faltava: heterossexual (eu acho, haha), cisgênero, simpatizante de várias lutas, (projeto de) feminista, pró-escolha, inclinada para a esquerda (literalmente, inclusive, segundo o raio X da minha escoliose), portadora de transtornos, estressada, tatuada, raspada, solitária, vazia e… agnóstica.

No caminho pro ponto fui andando desajeitadamente, tentando limpar de mim o pelo. Os chumaços voaram naquela manhã fria que fez na sexta.

A introvertida delirante falou mais alto; antes mesmo de chegar o ônibus eu já havia me fechado em mim.
Cheguei em casa, tomei um banho, e fui cozinhar. Não estava com fome, mas me pareceu ser um interessante tapa-buraco (não fosse o buraco existencial, talvez tivesse dado certo).
Me sentei ao sofá com a TV desligada. Acendi um cigarro (maldito hábito adquirido), e enchi o copo à minha frente, com chá gelado e vodka.

Nenhum dos dois quis sequer se aproximar; logo eles, que me receberam sempre tão bem (sabe-se lá porquê).
Os meninos chegaram, muito tempo depois. Disse a eles da comida na cozinha. Eles agradeceram, comeram, elogiaram o tempero, e foram se arrumar; “A gente vai sair. Vamos?”.

“Não, obrigada. Hoje não”. Eles insistiram um pouco, mas logo desistiram.

Acho que eu entrei em uma espécie de transe. Comfortably numb.

Não me lembro do que aconteceu nesse meio tempo, mas lá pelas 4, quando eles abriram a porta, eu ainda estava sentada, na mesma posição. Somente a luz do corredor estava acesa, e a luz da lua é que iluminava um pouco a sala.

O maço, ora cheio, já se encontrava amassado no chão. O chá já não estava mais gelado, e a garrafa de vodka estava pela metade.

Eles me estenderam as mãos e disseram que me levariam pra cama. Eu não quis; se eu levantasse, sabia que o mundo giraria ao meu redor, e a comida, inutilmente ingerida, seria expulsa pra fora.

O ar parecia estar mais denso e abafado, ainda que não estivesse quente.

Parecia haver eletricidade palpável no ar – a qual poderia, a qualquer movimento mais brusco, explodir o apartamento devido a minha inquietação crescente.

“Então a gente vai ficar aqui com você. Tá afim de conversar? Quer dizer… Aconteceu alguma coisa?”.

“Não, obrigada”. Nem sabia o que responder na verdade.  Uma névoa parecia embaçar a minha visão e eu sequer sabia o que estava sentindo. “Amanhã, talvez. Por ora talvez seja mais seguro que mantenhamos o silêncio”.
Um deles exprimiu o som claro que precede uma expressão de confusão, mas, ao olhar do outro, resolveu se calar também. Assim ficamos até que os primeiros raios de sol entraram pela janela.

Então eles vieram: ele se sentou no meu colo. Ela, mais desconfiada, se sentou um pouco mais longe – mas perto o suficiente para que minha mão conseguisse alcançá-la e acariciá-la.

Senti que o “sensor” deles estava falhando: nem todos os espíritos ruins haviam ido embora com o fim da noite.

Meu rosto

 

Enviado em 17/05/2014 às 03:45 am

Assunto: Meu rosto

A luta foi longa, dolorosa e silenciosa. Talvez nem tenha sido uma “luta”, por assim dizer, mas sinto que, de alguma forma (ainda que tímida ou mesmo risível) eu saí dela vitorioso.

Meses paralisado, julgando ser incapaz de sentir qualquer tipo de dor; isso foi em decorrência do quanto apanhei calado. Mas doeu sim, a cada momento, a cada dia que raiava, mesmo que eu sequer tivesse ido dormir.

Ela deixou no rosto marcas prematuras de idade e cansaço, e o corpo, ora inchado, ora murcho, deu uma cara para as minhas contínuas oscilações (físicas, biológicas, psicológicas e emocionais) durante estes últimos meses.

Ela me levou muitas lágrimas e esperanças, e quase me levou os dentes embora; quem me vê passando o fio dental, escovando com tanto afinco e completando com o enxaguante bucal (ainda que eu nem tenha tido tempo pra comer ou tomar qualquer coisa) coça a cabeça e me questiona com claro ar confuso: “mas… por quê?!”. Eu só respondo que o temor de perdê-los foi o que me abriu os olhos. Se eu realmente acreditasse em milagres, diria que o fato de ter sobrevivido com somente duas cáries seria um destes.

Hoje eu ainda posso sorrir, sem (teóricos) maiores receios ou vergonhas, por mais que seja de maneira forçada, sem vontade verdadeira de assim fazê-lo.

Essa luta deixou muitas máculas – não só no meu corpo, mas também no meu espírito e no meu olhar –, ainda que de primeira você talvez não consiga identificar.

Mas eu sobrevivi, e estou aqui pra contar essa minha história, por mais que ela seja sem graça e/ou não diga muito à você.

Aliás: se as palavras não lhe explicarem o suficiente, basta olhar para o meu rosto.

 

 

Fragmento 1 – Limites

 

22:22, Qua 27/08/2014

Com os olhos marejados e um leve tremor no lábio inferior, ela parou na minha frente. Com o pé pequeno ela traçou uma linha na terra, e me disse, em tom cansado: “É isso. Este é o meu limite. Daqui eu não passo. Eu não consigo passar daqui”.

Eu podia ver, nas gotas de sal que ela insistia em segurar, o quanto lhe doía dizer aquilo, e o quanto aquilo devia vir lhe torturando e lhe cozinhando os miolos.

Meu queixo caiu por um momento, e a má escolha das palavras, somada ao tom da minha voz, evidenciou a descrença e a irritação que me fizeram explodir de dentro pra fora: “E você quer fazer o quê?! Quer sentar aqui, e ver o dia virar noite, e depois dia novamente? Quer parar pra observar as unhas crescerem, as rugas surgirem, os cabelos nascerem brancos, e as juntas enferrujarem? Quer ver a vida pulsando ao teu redor, em eterno movimento, enquanto você fica sentada aqui? É isso que você quer?!”.

 A resposta dela me queimou, como se as palavras saíssem de sua boca feito uma erupção – me perdoa, meu pequeno vulcão; fui leviano ao não reconhecer toda a força da tua natureza: “e que mal há nisso?! Que mal há em ser humilde, admirar a beleza as vezes silenciosa da vida, e se misturar á ela? Por que passar o resto dessa vida maldita e imunda correndo de beco em beco, se temos alguma chance de sermos felizes assim e aqui? Você sabe tão bem quanto eu que só fica satisfeito enquanto sente o ar de novidade. Mas logo que você se acostuma, a ansiedade começa a te devorar as vísceras, e você sente um novo comichão que te faz querer partir. Até hoje não entendo como não deixou de mim! Não seja tão cínico; se há alguém que te conhece até de ponta-cabeça, essa pessoa sou eu”.

E é mesmo, admito.

Mas naquela hora eu não soube o que fazer. Eu só sabia que (pelo menos achava que) gostava imensamente dela.

Mas era isso o bastante?

Colcha de retalhos

 

– O que você está fazendo?

– Uma colcha de retalhos…

Me percebi com uma pá de tecidos e mais tecidos retalhados e já sem uso. Só tomando o espaço da minha casa, e entulhando o meu caminho.

Decidi que, talvez, ao fazer essa colcha, eu poderia dar uma serventia pros tais retalhos, e descobrir também o sentido de ter guardado e acumulado isso tudo.

– … mas não quero estendê-la sobre a minha cama, e muito menos me cobrir com ela.

– O que você vai fazer com ela, então?!

– Passar pra frente, eu acho. Um presente dado de bom grado não há de fazer mal. E suspeito que há quem tenha noites mais frias do que as minhas.

Relicário

… e sem nem saber exatamente como, fui parar em um parque.

Estava cansado, com um pouco de frio (o dia estava, apesar de ensolarado, muito gelado), e sentia, principalmente nos meus músculos, o stress que vinha carregando há tempos. As costas e a cabeça doíam, e sobre os ombros eu sentia uma carga de uma tonelada.

Milhões de frases sem nenhuma cor…

Resolvi sentar e “lagartear” um pouco. Logo percebi que o sol estava  “ardido”, mas gostei da sensação. Ele me esquentava cada vez mais, e o calor ia dissipando a minha tensão e relaxando meu corpo.

O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou…

Parece que, só depois disso, finalmente percebi onde estava. Olhei para o lado, e lá estava ela. Ela olhou pra mim e sorriu, um sorriso reluzente que me aqueceu tanto quanto o sol.

Tive então a nítida impressão de que aquilo se tratava de um sonho.

A sensação só aumentou quando ela falou, como quem continuava uma conversa, “… foi uma boa ideia vir até aqui hoje, né?”.

Sem notar (ou sem dar atenção ao meu rosto surpreso) ela ainda disse:  “não estava nos meus planos, mas provavelmente agora não há lugar melhor pra se estar”.

Concordei com ela, e ambos levantamos o olhar para o céu, por onde voavam agora muitos pássaros. Me perguntei quais eram aqueles, mas eu não tive nem ideia; nunca dei bola pras aulas de biologia, e, na verdade, aquilo nem importava mesmo.

Voltei a olhar pra ela, e mais uma vez me apaixonei por aqueles olhos, que pareciam saltar do rosto quando neles batia o sol. 

A tarde linda que não quer se pôr…

Ela chamou minha atenção para uma flor, para a qual ela apontou, com seu dedo, pequeno e delicado. Mesmo antes do seu “olha que bonita!” eu já sabia que se tratava da sua favorita. A qual nem sua beleza e nem seu aroma se comparavam aos dela.

Voei pra longe. Pro passado?! Quando me voltei, pra dizer a ela “Estava te procurando; senti muito a tua falta”, o frio me alcançou, o céu encobriu, e a chuva caiu, em gordas e congelantes gotas. Mas elas não pareciam me molhar. Com os olhos desesperados procurei por ela, mas ela não estava mais lá.  

O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou… 

A minha frente só vi minha escrivaninha, alguns papéis e canetas, e o meu computador. Ouvi um leve suspiro, me virei para a cama e lá estava ela, deitadinha e bonita, quase adormecendo sobre um livro. Pisquei de novo e esfreguei os olhos, de maneira cartunesca, mas ela também já não estava mais lá.

Vi seu vulto, saindo pela porta, e me levantei em um pulo, mas, quando desembestei pelo corredor, não havia ninguém lá.

Escutei um barulho, vindo do banheiro, e antes mesmo de adentrá-lo vi no espelho um lindo reflexo, que pintava os lábios que eu tanto amava com aquele batom, que ela usava quando queria me provocar. Entrei enfim, e nem sinal de toda aquela estupenda vida havia lá. 

Da cozinha ouvi tampas encaixando em panelas, e senti o cheiro daquela sopa, que só ela sabia preparar. Fui na ponta dos pés, para surpreendê-la e abraçá-la por trás, como eu costumava fazer. Ao chegar lá me deparei com pratos sujos, garrafas vazias de vinho barato e latas de cerveja caídas, embalagens com farelos, mas mais nada havia lá. 

Milhões de vasos sem nenhuma flor…

Mais nada havia lá. Nem cá.

“Estou alucinando em modo multisensorial, veja só… essa é nova.”. 

O que você está dizendo? O que você está fazendo? Por que que está fazendo assim?  

Escutei o barulho da mensagem do celular. Já impaciente e descrente fui olhar. “Tá ocupado? Queria ir aí… A gente podia conversar”. 

O fogo percorreu meu corpo, e eu respondi, sem perder tempo ou hesitar  “VEM!!!”.

“Mensagem enviada”. “Mensagem entregue”. Continuei checando a cada 30 segundos, mas nada havia chegado lá.

Não sei por quanto tempo fiz isso.

Enfim escutei a campainha tocar. O coração perdeu o compasso.

Corri, e abri a porta. 

Como um gatilho sem disparar você invade mais um lugar onde eu não vou…

Tatuagem

Você olha pra fora da janela. Olha e olha, mas não vê nada.

E você “faz a louca” (sim, porque você já “meio que” O renegou hace mucho) e roga a Deus por alguma luz, mas Ele não te ajuda. Não é por você não conseguir reconhecer os sinais Dele, ou porque Ele não te escuta; é porque Ele realmente não está lá.

E no último do desespero (risível), você resolve pedir ao diabo, e fica só esperando ver as fuças e os chifrinhos dele, mas ele também não vem.

Você acha, e diz a si mesmx e aos outros que não consegue entender o que está errado ou fora do lugar, mas você sabe exatamente o que é. Você sabe exatamente tudo o que não encaixa e/ou faz falta.

E você senta, ajoelha, pede, implora, suplica!, pra ir dormir, sem sonhar, e sem lembrar. Mas, ah… você sonha. E você lembra também.

E fica revoltadx porque não conseguia se lembrar da maldita equação pra prova da escola, ou a citação daquele autor importante na faculdade. Mas o brilho dos olhos da pessoa, como o mundo se iluminava quando ela sorria, ou o toque macio dos dedos dela no seu rosto e nos seus cabelos você não consegue apagar ou esquecer.

Por que é que você lembra? Por que é que, justamente disso tudo, você não consegue esquecer? Por quê?!

Daí você se toca que isso tudo é como uma tatuagem, gravada fundo na sua pele. E que lá ela vai ficar, talvez não pela eternidade, mas, pelo menos, até o fim dos seus dias.

Game over

Curitiba, 2007

Fins dos 47, a prorrogação não parece ajudar a mais ninguém: os times não saem do zero a zero. O “G” de “game over” já começa a aparecer na tela, quando o atacante do time A, em seu gás final, derruba o zagueiro do time B e marca um gol.

Mas a torcida não comemora. Não, não comemora. Mas como não?! Ah, era um amistoso. Sem perdedores; era como tinha que ser. O gol quebrou esse acordo. Quer dizer, tava subentendido. Todo mundo sabia. Ou parecia saber… A notícia estamparia a primeira página dos principais jornais na manhã seguinte. “O time A, sempre honesto, agiu de má-fé”. É. A derrota destruiu o moral do time B, que já andava mal das pernas. Como chegar no atacante A e perguntar por que ele havia feito aquilo? Foi cruel; foi devastador; foi… foda.

O campo de futebol se transformou em um campo de guerra; destruição de uma história bonita, tristeza, e melancolia por toda a parte.

Mas logo o campo de guerra do atacante do time A se transformou em um campo de flores, e o do zagueiro do time B virou um descampado. Enquanto se respirava vida no primeiro, se cuspia, expirava e suava morte no outro. E isso não é um exercício de hipérboles! É um retrato de um simples cronista esportivo.

 

Não, isto não se trata de uma crônica esportiva. Sim, isto se trata de… um eufemismo, comparação…, por aí.

26 anos de amistosos depois. O fato é que a mulher seguiu com a sua vida, casou novamente, mesmo contra a vontade dos filhos. O homem, por sua vez, começou a somar vícios e mágoas. Ou foi o contrário? De qualquer maneira, saldo negativo. Os dois jogadores ficaram devendo pontos… game over

 

Wayfaring stranger

I like to roam around from town to town. I prefer the small ones. It is easier to make money, believe it or not. And you don’t spend that much, if you know how to put on the puppy eyes, and earn people’s trust.

I usually stay for some months, and then announce my departure. They’ll prepare me nice dinners and farewell parties; I’ll say “goodbye” and how much I’ll miss them. Then I’ll keep on walking.

And I really do. I mean, I really miss them. But once they’re getting too close for comfort, I know it’s time to hit the road, Jack.

Some even question me when I’ll settle down, but I never know what to say. So I’m honest, wish them the best, and say I have to go.

Funny how people, even in the 21st century, still give wayfaring strangers rides. I’m not sure I would, but thank God they do!

Things are not always easy; sometimes–in fact, most of the times–they are awfully tough. But I’m not complaining; my spirit never weakens. As hard as life and circumstances hit me, I still manage to never fall apart.

As I walk, I get mud on my boots, after it rains; I get amazed by the view on mountain tops; I get intoxicated by the smell of flowers and freshly mowed lawn in the spring; on really hot days I crave for the rain and the smell it comes when the water drops hit the dry ground; my skin gets tanned and freckled on the sunny days; and I smile with the snowmen kids make as soon as the snowflakes start to fall.

I never know exactly where I’m going, and, even though I grow and feel a little more complete as I move from one town to the other, somehow the urge to wander goes off inside.

And off I go.

As I’ve said, I don’t know where I’m heading to. But I know where I’d like to be.

I hope to see them again, someday. All of them. My dad… And, at last, my mom.

So many moments; so many of them. The ones that loved me and crossed my way, while I am just a poor, wayfaring stranger, traveling through this world below.

I know that, once we meet, there won’t be a brighter day. So I walk.

I decided some days ago; right now I’m going to Jordan. Yet, and I have no idea why, something tells me I may finally be going home.