Olhos vermelhos

24/02, aprox. 10am:

“Os velhos olhos vermelhos voltaram(…)”.

Me causa até uma afliçãozinha que essa música seja da Capital Inicial. Porque a letra não é tão bosta assim. E é bem relatable.

As minhas dores é que voltaram, na verdade.

Não que elas tenham me deixado de fato; em alguns dias elas se esgueiram pra fora do buraco, onde consigo mantê-las relativamente isoladas na maior parte do tempo.

O que acontece é que nessas férias elas tiraram férias do buraco também.

Ficar parada e quietinha é bom. Eu gosto demais disso. E passo o ano inteiro sentindo falta, porque tudo é caótico e “entulhado”.

Mas, quando faço isso, elas tomam conta de mim: quanto mais imóvel, mais dor eu sinto.

Então eu vou dormir, cansada, e, quando acordo no dia seguinte, me sinto mais cansada ainda. Exausta, na verdade.

“Morrer, dormir; não mais. E com o sono — dizem! — extinguir as dores no coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita. Eis uma consumação ardentemente desejável” (Shakespeare).

Eu sei essa citação de cor. Talvez porque eu gostaria muito que ela fosse verdadeira. Ou, quem sabe, porque realmente era até um tempo atrás.

É difícil e “chato” não saber onde repousa a sua paz.

E (muito) doloroso.

Eu não quero tomar remédios o tempo todo. Mas se eu não tomar, pelo menos por ora, os dias ficam mais miseráveis (ainda).

Então eu tomo um analgésico aqui, outro ali, e sinto a hipocondria familiar avançando, passo a passo, pra fora de um outro buraco.

Porque eu sou assim mesmo, toda perfurada por dentro.

Quem sabe é até por isso que sinto dor: sou como uma esponja, cheia de sulcos e reentrâncias, que fica absorvendo diversas coisas ruins.

 

08/03 — 09/03:

Alguma coisa me derrubou. Dor de cabeça, no pescoço, nas costas, fotossensibilidade, dores nas articulações dos joelhos, quadril, punhos e cotovelos, dor no abdômen, perda de apetite, febre, pele sensível (como se tivesse sofrido queimaduras de sol)… E.A.? Gripe? Virose? Dengue? haha.

Pensar que pode ser a última é tão distante que me faz rir. Mas os sintomas batem… 

A última vez que me senti assim foi no começo do ano passado.

Mas, mesmo naquela época, eu não sentia todas essas coisas.

Um copo de água com limão, dois comprimidos analgésicos, e muitas horas de sono… e nada.

Rolei de um lado para o outro, desconfortável e agoniada, tentando reprimir uma crise de ansiedade que parecia avançar rapidamente.

O plano foi encerrado em outubro passado, e ir ao hospital público não está rolando (deveria ter feito isso hoje de manhã, já que não fui pra aula — mas eu não estava nem conseguindo me vestir sozinha).

A pressão vai me sufocando, e as partes do meu corpo parecem peças mal encaixadas de um exoesqueleto. Se eu apenas pudesse tirá-las, uma a uma!…

Que merda; acho que estou mesmo um pouco assustada (haha).

09/03, aprox. 10pm:

Antes de sair para a escola, deu “teto”. Tive que pedir para cancelarem a aula, pra que eu pudesse ir ao PS.

18:37, horário de chegada; 21:15, horário de saída. E nenhuma resposta.

“É bom que você fique atenta, e, se as dores não diminuírem, você volta, faz exames, e fica sob observação”.

Ah, vá.

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