Juliano Pavollini

“Recomeço com um lugar comum: com o passar do tempo, o tempo perde o brilho, massa flutuante, uma ponta aqui e outra lá, entre os vazios. Quanto mais nos afastamos, mais tudo fica igual a tudo. Perdemos senso, nitidez, ângulos; perdemos a fúria. Há quem chame isso de sabedoria. Se nos afastamos ainda mais, olhando para um passado que está em lugar nenhum, mas que nos lanha, queremos morrer, e também isso parece sabedoria. E há os que que se aferram desesperados ao que foram, ou poderiam ter sido — passamos a vida escutando o grito desses loucos. Comigo não acontece nem uma coisa nem outra. Tenho plena consciência de que não consegui ser nada, mas — Clara deve saber — não desisti. E não sou suicida a ponto de fingir esquecimento — há uma caixa de segredos que ficou atrás, e eu gosto dela, mesmo sem compreendê-la. Digamos que não há um só desgraçado que em algum momento da vida não tenha se transformado num pequeno Deus, não tenha pressentido o sopro do controle da vida, do tempo, da história — assim, nas mãos, palpável, uma breve eternidade”.

Juliano Pavollini. TEZZA, Cristovão, 1989, p. 63 (grifo próprio).

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