Fragmento 4 – Sobre o efêmero

Aproximadamente 8pm

Eu vi um caminhão atropelar um cachorro. Foi tudo muito rápido — e não só porque estávamos na BR.

Ele o dividiu em dois e as tripas voaram pelo asfalto.

Eu perdi o ar no mesmo instante, e os braços que seguravam o volante tremeram. Pensei que fosse fazer merda, porque meus olhos se embaçaram demais.

Eu não queria sair de casa… Eu estava assistindo a série nova, e…

(… TEPT. Sim.. Em algum nível isso me é familiar.)

A sala cheira a lírios, mas agora a minha cabeça doi. Semana que vem, no máximo, eles se vão também.

A região das minhas órbitas também doi, mas o pior é o choro engasgado que se embola e faz doer a minha garganta.

“Engraçado”: hoje mesmo eu estava pensando, enquanto esperava o sinal fechar (“cara, cê já sabe: se eu tiver que correr pra pegar o ônibus ou pra atravessar a rua, perco ele ou morro atropelada”, como eu repeti, pela milésima vez, um pouco mais tarde — mas antes do resto): os ônibus e os carros passam muito rente ao meio fio. O vento sempre balança meu cachecol. E essa fumaça, que fica impregnada nos cabelos, nos poros e nas roupas, e reaparece em tons de cinza ou preto ao assoar o nariz ou esfregar a pele? A gente morre aos poucos, todos os dias, e mal se dá conta. Mas eu sempre noto — pelo menos isso.

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