5:10am

She’ll be so upset when we tell her you’re not here anymore… More than we are, and it is already a lot.

And she will feel even worse when we tell her it was today, many months before the day she will find out you passed away.

You were probably her favorite; did you know about that?! Until the other one — “mine” — left us you were so playful!… Then, apparently, the perception of death hit you and you were changed forever.

I didn’t even want you in the first place! I remember they went out one day and I had to “babysit” you. It pissed me off, because you could stay neither outside (otherwise you would cross the gate bars, since you were just a little light brown ball of fur with hazel-greenish eyes), nor in (and I found out about that the “smelly way”, after you crapped all over the kitchen floor).

But you were already here, so, what could I do? I took care of you throughout the years, but I know I haven’t given you all the love I could, and I’m terribly sorry about that. I have been feeling like that for years, actually, but I was always so distant, so egoistic, so immersed in myself…

The tears I have already cried (and I’m sure many more are on their way) are sincere, though. And they roll down my face not only because you are gone, but also because I know how this will make her heart ache.

This has been such a difficult period for all of us! So much has happened in a relatively small period of time… When you got sick months ago it was already hard, but now this!… This is the worst blow of the year –another lie (and another harsh feeling) we will have to hide deep inside of us… (at least for now).

… we are really, truly and deeply sorry, dear.

From your name to the odd colors of your fur, the memories of you will follow me (and haunt me) until my time comes.

We did what we could, and still we can’t even understand this whole episode, since everything happened so fast. Probably, for a while, we will keep calling your name, and then pain will strike us when we realize you won’t come.

It made our hearts sink to see you in such a delicate situation; I didn’t want it to go that way, but I’m relieved it doesn’t hurt you anymore. Money can buy a lot of things in this world, but it couldn’t bring you back to us. But you were strong until the end, and we’re proud of you for that.

Even though this may sound as a cliche, you will be with us forever, when we tell one of your stories or see another dog that resembles you.

I’m really, really sorry dear. I can’t say that enough. But, if there’s actually something as “life after death”, I hope you live on.

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Daytripper

 

daytripper01

Benedito — “‘Não senhora’, respondeu a Razão. ‘Estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada… o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar… daí à de visitas e ao resto.’

‘Está bem, mas deixe-me ficar um tempo mais… Estou na pista de um mistério…’

‘Que mistério?’

‘De dois’, emendou a Sandice. ‘O da vida e o da morte… Peço-lhe só uns dez minutos.’

A Razão pôs-se a rir.”

Miguel — Papai! Que bom que você veio! O vovô disse que você ia me contar uma história.

Brás — Disse, é?

Miguel — É, mas ele não disse sobre o que era.

Ele falou que só você sabia.

Brás — Bom, acho… Acho que é uma história sobre a morte.

Miguel — ” A morte”?

Brás — Na verdade é sobre a vida… mas a morte tem um papel importante.

Miguel — Eu não gosto da morte.

Brás — Ninguém gosta. Mas a verdade, goste ou não… é que todo mundo morre.

A vida é como um livro, filho. E todo livro tem um fim. Não importa o quanto você goste do livro… você vai chegar na última página… e ele vai terminar. Nenhum livro é completo sem o fim. E quando você chega lá… somente quando você lê as últimas palavras… é que você vê como o livro é bom. Ele parece mais real.

Agora vá se divertir. Preciso conversar com o vovô.

Eu não vou acordar, não é?

Benedito — Eu acho que não.

Brás — Por quê? O que aconteceu?

Benedito — Não importa. A verdadeira pergunta é…você quer continuar sonhando?

Brás — Eu tenho escolha?

Benedito — Você sempre tem escolha.

Brás — E agora?

Benedito — Bom, é só imaginar onde você quer estar… e ler a história até o fim.

Meu nome é Brás de Oliva Domingos, e eu sou um sonhador. Não sei dizer que idade tenho, mas apenas que sou jovem demais para questionar se no passado fiz as perguntas certas, e velho demais para esperar que o futuro traga todas as respostas. 

Nos meus sonhos, sou o escritor da minha própria história, embora nunca escreva sobre mim mesmo, sendo este obituário a primeira e única exceção. 

Os lugares para onde meus sonhos me levam, não importa se nunca estive lá ou se nunca estarei… me ajudam a entender de onde venho… e para onde eu quero ir. 

Então o que meus sonhos me mostram mesmo é o que a minha vida pode ser quando eu abrir meus olhos. 

Meus sonhos me dizem quem eu sou.

Meu nome é Brás de Oliva Domingos.

Essa é a história da minha vida.

Respire fundo, abra os olhos e feche o livro. 

 

Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá.

(Barueri: Panini Books, 2011, p. 218-226.)

 

… que eu poderia chamar também de “uma das coisas mais lindas que meus olhos tiveram a graça de ver esse ano”.

Amianto

… mas poderia se chamar também “Sua trilha sonora”.

 

“Moça, sai da sacada
Você é muito nova pra brincar de morrer
Me diz o que há, o que que a vida aprontou dessa vez

Venha, desce daí
Deixa eu te levar pra um café
Pra conversar, te ouvir e tentar te convencer

Que a vida é como mãe
Que faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais
Pois sabe que faz bem
E a morte é como pai
Que bate na mãe e rouba os filhos do prazer
De brincar como se não houvesse amanhã

Moça, não olha pra baixo
Aí é muito alto pra você se jogar
Vou te ouvir, e tentar te convencer
(Somos programados pra cair)

(…)

Mas tudo bem, nem sempre estamos na melhor

Moço, ninguém é de ferro
Somos programados pra cair

Fragmento 4 – Sobre o efêmero

Aproximadamente 8pm

Eu vi um caminhão atropelar um cachorro. Foi tudo muito rápido — e não só porque estávamos na BR.

Ele o dividiu em dois e as tripas voaram pelo asfalto.

Eu perdi o ar no mesmo instante, e os braços que seguravam o volante tremeram. Pensei que fosse fazer merda, porque meus olhos se embaçaram demais.

Eu não queria sair de casa… Eu estava assistindo a série nova, e…

(… TEPT. Sim.. Em algum nível isso me é familiar.)

A sala cheira a lírios, mas agora a minha cabeça doi. Semana que vem, no máximo, eles se vão também.

A região das minhas órbitas também doi, mas o pior é o choro engasgado que se embola e faz doer a minha garganta.

“Engraçado”: hoje mesmo eu estava pensando, enquanto esperava o sinal fechar (“cara, cê já sabe: se eu tiver que correr pra pegar o ônibus ou pra atravessar a rua, perco ele ou morro atropelada”, como eu repeti, pela milésima vez, um pouco mais tarde — mas antes do resto): os ônibus e os carros passam muito rente ao meio fio. O vento sempre balança meu cachecol. E essa fumaça, que fica impregnada nos cabelos, nos poros e nas roupas, e reaparece em tons de cinza ou preto ao assoar o nariz ou esfregar a pele? A gente morre aos poucos, todos os dias, e mal se dá conta. Mas eu sempre noto — pelo menos isso.