Stabat Mater

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Quinta, 15 de outubro de 2015, mais cedo:

“O Stabat Mater (latim para Estava a mãe) é uma prece ou, mais precisamente, uma sequentia católica do século XIII.

Há dois hinos que são geralmente chamados de Stabat Mater: um deles é conhecido como Stabat Mater Dolorosa (sobre as Dores de Maria), e o outro, chamado Stabat Mater Speciosa, que, de maneira alegre, se refere ao nascimento de Jesus. A expressão Stabat Mater, porém, é mais utilizada para o primeiro caso – um hino do século XIII, em honra a Maria, e atribuído ao franciscano Jacopone da Todi ou ao papa Inocêncio III.”

Wikipédia

Algumas músicas já tinham sido apresentadas, e a primeira delas foi no saguão de entrada; inesperado.

O auditório da Reitoria é simples, e similar a muitos outros: duas entradas laterais, dois corredores dos lados da seção central, e o palco, um meio círculo, com duas pequenas escadas nos lados. Nele um piano de cauda, uma pequena caixa de bateria, e os holofotes, que o inundavam de rosa e azul.

Quase desnecessários, diga-se de passagem; eu poderia ter imaginado a iluminação sozinha.

De repente todos os cantores saíram e foram novamente para o saguão. De lá escutamos as primeiras notas de um violoncelo, e as vozes foram entrando aos poucos, como se sopradas por uma brisa leve. Muitas vozes – cada vez mais vozes –, do agudo ao grave, como ondas chegando na areia.

Elas encheram o auditório – primeiro num fluxo lento, mas logo em jatos, que borbulhavam como quando gargarejamos. Parecia água colorida, com os tais tons róseos e azulados, entrelaçando-se como fitas – sensação sinestésica que eu não tinha há tempos (desde você, que carregava em si, normalmente, o verde e o azul – e tons de vermelho, explosivos, em alguns momentos).

Fechei os olhos e me senti sozinha, mas não tive medo de me afogar. Era como se eu estivesse à deriva, balançando de um lado para o outro ao sabor daquela maré.

Vez ou outra a intensidade aumentava, e eu podia imaginar a água em borbotões, quebrando vidros imaginários – tais quais os de um navio. Sim: aqueles poderiam ser os sons que embalariam em fortes correntes o fim dos tripulantes de um acidente marítimo, ou a trilha sonora de uma cena épica, em que um deus greco-romano ou nórdico clama de novo para si o domínio de todos os mares e oceanos.

Ou ainda: é como se eu estivesse bem no olho de um furacão – ou melhor, de uma tromba d’água – composto por todas aquelas vozes, que nos abraçavam apertado, e em diferentes tempos compunham a canção.

Aquela não foi a última vez em que estive lá, mas fui transportada de volta para aquele 26 de junho. E a expectativa feliz e ansiosa que tomava conta do meu ser naquele dia deu lugar à solidão e à saudade, que me assolaram e me fizeram reabrir os olhos (onde você está? O que está fazendo agora?!).

Senti a garganta engasgar e o ar faltar, como se a água entrasse em meus pulmões (e forçasse caminho para sair pelos olhos). Nem que eu tivesse querido sair correndo eu teria conseguido; a gravidade havia se redobrado, e me segurava no chão como se eu houvesse me tornado uma âncora.

Consegui fechar os olhos e continuei navegando, mas de súbito – e muito cedo, talvez – a música acabou, tal qual houvessem arrancado a tampa de um ralo. Juro que pude até ouvir a água escoando.

Logo a sala estava novamente cheia, mas tudo estava seco.

Os cantores voltaram ao palco, e cantaram mais uma música ou duas. O regente se dobrou em agradecimentos, e as mãos se cansaram de tanto bater palmas.

Antes que eu me desse conta todos já se levantavam; era hora de ir embora. “Boa noite… obrigada… obrigado…”.

Me levantei também e a água nos levou – ainda que a meu contragosto – de volta para a praia.

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