Sinto sua falta (ou “Um guia sincero para os visitantes desavisados do Jardim Botânico de Curitiba”)

Jardim Botânico (inverno 2015)

Sábado, 11/07/2015, 23:10

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Domingo, 19 de julho, por volta das 8 da manhã:

Dizem os mais antigos que “neblina que baixa, sol que racha”. Ainda está muito cedo pra garantir como será o resto do dia. Mas ainda está fazendo 12ºC, e é assim mesmo que eu prefiro.

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O Jardim Botânico de Curitiba é o típico lugar para se levar um parente ou uma visita de fora. Mas pra passear também. Provavelmente é, até hoje, o maior ponto turístico da cidade.

O parque foi aberto em 1991, e se encontra bem próximo do centro da cidade, em frente a um dos campi da tradicionalíssima (cof cof) Universidade Federal do Paraná. Há uma estufa enorme, com três domos; sua armação é feita de vidro e ferro na cor branca. Em datas “comemorativas”, de noite, ela é iluminada por diferentes cores. Nos outubros a estufa é rosa, e, durante a copa do ano passado, foi verde e amarela (não ajudou muito, no entanto), por exemplo.

Dentro da estufa há espécies da flora da mata atlântica. É engraçado olhar de fora; parece que as plantas são como sombras por trás dos vidros, embaçados de sujeira e neblina. As folhas – principalmente as das palmeiras – aparecem como formas meticulosamente recortadas. Mas lá dentro a vida explode, nos diferentes tons de verde das bromélias (com seus microhabitats em meio líquido por entre as folhas do centro) e ananases levemente rosáceos. Só é um pouco triste (para mim) pensar que um dia aquelas plantas não poderão crescer mais – tal qual dizem que ocorre com peixinhos dourados em aquários (?).

Há ainda uma escada em espiral (que eu não pude deixar de comparar com as voltas das conchas de moluscos – mais especificamente das de Nautilus, com suas pequenas câmaras internas. Talvez isso tenha a ver com a formação paleontológica que um dia eu sonhei pra mim) que nos leva ao primeiro andar (lembro que quando eu era pequena sentia certa agonia ao olhar pra baixo e ver tudo por entre as grades), o qual permite ainda uma visão mais elevada do mosaico à frente.

Sim, em frente a estufa há um jardim com desenho inspirado nos célebres jardins franceses e pelo menos duas fontes (acho que varia de pessoa para pessoa o critério, haha). Em uma delas há uma estátua, de uma mulher segurando uma pequena criança; esta é, aliás e definitivamente, uma das fotos mais tiradas de quem vai até lá.

Há, no final do jardim, um bonito portal, que parece estar sendo tomado pelas flores. Por falar nelas: há muitas cerejeiras plantadas no caminho que nos leva do portal ao estacionamento. Neste momento elas estão floridas, e as pequenas flores de cinco pétalas e diferentes tons de rosa salpicam os galhos e a grama ao redor.

Por entre as formas geométricas do jardim e por todo o parque há muitas trilhas, por onde as pessoas passeiam (cedinho, de manhãzinha, elas costumam andar ou correr, e há ainda formandos, noivos e casais grávidos que utilizam o parque como pano de fundo para registrar suas recordações – que eles provavelmente esperam que durem pra sempre), e bancos aqui ou ali.

Há, se não me engano, dois lagos, um museu botânico, um espaço para exposições (atualmente fechado), e outro espaço mais “restrito”, chamado de “jardim das sensações” (o nome é autoexplicativo, creio eu). Existem muitos gramados. E nos domingos de tarde cada árvore parece ser praticamente desenhada para ser a sombra de um casal. Há quadras de tênis, canchas de futebol, um velódromo… o que mais?!

Humm… Muitas espécies nativas, tanto da fauna quanto da flora. Se você for lá bem cedo há de encontrar cutias, jacus e saracuras, por exemplo. Fora os patos e peixes que nadam sob a ponte do museu.

No domingo passado vi um(a?) jacu muito entretido(a?) com o seu reflexo em um bebedouro. Me fez recordar das aulas de etologia na universidade; mas, naquele caso, o professor falou de aves bem menores, passeriformes. Parei por uns dois minutos, após arriscar uma corridinha de alguns metros, e fiquei olhando a cena, quase que hipnotizada. Mas logo saí, porque havia quem já me olhasse com estranhamento.

Ah, os curitibanos, naturalmente… São espécimes deveras curiosos e de modos de vida gritantemente diferenciados do resto dos espécimes nacionais (e mundiais, por que não).

Andando por uma das trilhas vi uma cascata alaranjada de flores-de-São-João (devo admitir que o Google me deu uma mega ajuda com o nome das espécies – afinal, acho que a biologia já é mesmo um capítulo do meu passado); estava linda. Perto desse trecho há um terreno que, acredito eu, é agora baldio. Os tapumes que o separavam do parque não resistiram ao peso das (prováveis) heras que crescem abundantemente, e parte deles caiu. Meio tenso, mas enfim; suspeito que devem haver câmeras aqui ou ali – e volta e meia me pego pensando nisso: “será que nos assistem? Tipo: ‘ah, essa aí não vem sempre, mas aquele vem com sol ou chuva!’. Grande irmão, você está aí? Estamos fazendo nossos exercícios matinais!”.

Mais pra frente, dentro da mata cercada, há pelo menos uma araucária muito grande; o que me chamou a atenção, desde a primeira vez que vi uma delas, foi o fato de que sua epiderme (quantos anos levou para chegar até este ponto?!) já está se desprendendo. Grandes pedaços se encontram quase caindo, e sabe-se lá o pouco que ainda os segura.

Não sei como são os outros dias, mas ao ir lá no domingo, por volta das sete e meia, é praticamente garantido ver e ouvir o trem passar. Pois sim: no meio da cidade você ainda vê dessas. Ele passa, longo e longamente, num compasso que parece acompanhar a morosidade de um típico domingo. Apita religiosamente naquele horário, feito um cuco (outrora) a vapor.

Mas tudo isso é, na verdade, não mais que uma mera introdução; acho que agora já dá pra explicar do que me lembro quando penso no parque.

A natureza me encanta – sempre me encantou –, é verdade. Mas desde o momento em que decido ir (em definitivo só na noite do dia anterior), até o momento em que entro no carro e saio de lá, é uma “obra de homem” o que mais mexe com a minha cabeça. E nem fica do lado de dentro do parque.

Seguindo por uma pequena rua lateral, que sai da BR 476 (logo após passar sobre a rua Maurício Fruet), há, no concreto da estrutura do viaduto (que é a continuação da BR 277 – o que acho que já consta como Avenida Prefeito Lothário Meissner), em letra caprichada e com um pequeno coração, uma singela mensagem em três palavras.

E eu tento imaginar a pessoa que fez aquilo e no que (ou melhor, em quem) ela pensava quando fez aquilo e em como deve ter sido aquele dia (ou noite) – aliás, em como foram os dias antes e depois daquilo – e se ela estava acompanhada ou (provavelmente) só e em qual história ela devia carregar na cabeça e quais sentimentos carregava no peito e se ela ainda se lembra desta mensagem que deixou e… e daí eu começo a pensar em mim. E de quem eu me lembro e porque (ainda!) me lembro e porque essa mensagem me diz tanto e…

Se algum dia alguém me perguntar “Mas o que, na sua opinião, há de mais interessante no Jardim Botânico de Curitiba?”, ainda que eu responda de outra forma, acho que a resposta mais sincera é: “não sei, mas lá, PRA MIM, há saudade”.

Sinto sua falta*Sinto mesmo; ontem, hoje, amanhã e sempre.*

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