Leãozinho

c1770ae781652b26bb4d2e84db88ad39

Quando eu era pequena me chamavam de leãozinho no lugar onde eu morava. O motivo era óbvio: o cabelo cacheado, loiro e muito volumoso.

Ontem vi uma notícia, sobre uma galera que estava se juntando pra fazer uma festa de boicote ao show do Caetano e do Gil (mais uma vez no meio de uma polêmica em tempo recorde), devido aos preços abusivos dos ingressos.

Sonhei, na passada, que eles passaram por mim e pela minha irmã mais nova na rua, e que começaram a tocar pra galera em uma praça. Me lembro de estar sentada na pontinha de um banco, até que alguém me perguntou o que eu gostaria de escutar, e eu sorri e disse “‘Leãozinho’. Essa música é muito importante pra mim”.

Essa versão faz subir água aos meus olhos.

In the blood

“Wesley – You were right to reach out to us, although a call would have been more appropriate.

Anatoly – Look, I… I wanted to speak with him in person.
Try to put the past behind us.
(Brakes screech lightly) Why are we stopping?

Wesley – They say the past is etched in stone, but it isn’t.
It’s smoke trapped in a closed room, swirling, changing.
Buffeted by the passing of years and wishful thinking.
But even though our perception of it changes, one thing remains constant: the past can never be completely erased.
It lingers.
Like the scent of burning wood.

Daredevil (Netflix, 2015), Season 1, Episode 4

Transcripts

Sonhos 3, 4 e 5

16/08/2015, domingo

Sonho 3 (há quase 2 anos)

Um quarto com várias camas. Ele me pede pra sair da dele e eu vou pra outra, e logo um cara* (?) vem conversar comigo. Mas eu não queria nada com ele. Observo de longe uma menina chegar na cama dele. Ela é bonita, pequena, magra, tem um corpo bonito, e tem cabelos longos, lisos e vermelhos*. Está vestindo uma camisola preta. Eles começam a se beijar e se deitam sob as cobertas.

Naquele dia eu estava lá; era um domingo, acho. Acordei por volta das 6, e não consegui dormir mais — na verdade não quis, pois o medo foi de voltar pro sonho. Levantei, fui comer, sentei na sua poltrona e tentei ler (um livro que até hoje está inacabado haha; acho que meu subconsciente já sabia que, pelo jeito, essa realmente não será minha profissão). Estava quase caindo no sono, mas não queria mais me deitar. Ele acordou e acho que viu meus pés balançando no braço da cadeira; perguntou se estava tudo bem, e eu menti disse que sim.

* Aparentemente ele já tinha feito isso antes (na vida “real”), e eu não notei. Foi ele quem me avisou.

** Acho que o sonho aconteceu bem antes, quando as coisas começaram a ruir; talvez até tenha sido esse sonho um marco inicial. Mas enfim: um dia após o Natal, fios de cabelo vermelho na cama (que eu sei bem que nem eram do mesmo tom dos cabelos da guria do sonho, mas vai que há algo como “coincidência”?!) e uma briga; será que é impossível entender os motivos para a dor dx outrx? Existem limites?

Sonho 4 (este ano?)

Estou no meu banheiro. Sinto alguém me abraçar por trás; as mãos envolvem a minha cintura, me apertam, e a cabeça se encaixa no meu ombro*. Me sinto tão bem!, e me lembro que quase pude sentir o toque fisicamente. Ele me fala algo como “eu (ainda) te amo”. Talvez tenha falado também “mas eu tenho que ir”. Já naquele abraço aquilo tudo me cortou o coração. Aliás: já naquele sonho (que eu sabia ser um sonho, porque já tinha noção de que era impossível demais) aquilo tudo me cortou o coração.

* 08 de dezembro de 2013, domingo de noite, após a pior peça de teatro deste universo, arrumando meu cabelo no espelho do guarda-roupa: ele me abraça e fica nos olhando no espelho, e, depois de falar que o meu cabelo cheirava bem (é, acho que foi nesse dia), fala que de fato (como tinham dito minhas amigas) nós combinamos (combinávamos). 

Sonho 5 (15/08, nesta última noite*)

Estou em um prédio movimentado; é lá que eu moro, em um apartamento com mais pessoas. Já no saguão vejo que, por um motivo absurdo (que não vem ao caso) estou com calçados péssimos para andar (e eu teria que andar muito), então resolvo voltar para trocar, mas, ao entrar no elevador, não lembro do andar.

Aperto um que eu achava ser o certo e as portas se abrem (diretamente) no apartamento deles (?!). E lá estão os três e mais alguns amigos. Ele fica feliz em me ver, acena, e uma delas também, com o seu sorriso característico. A outra delas (“A” haha) está deitada no chão, e dá um sorriso amarelo ao me ver — mas não era ela; era a outra menina, que eu já vi tantas vezes no Facebook e vi quarta passada no “maldito” programa**. Enfim… Eles se levantam, me cumprimentam, e parecem sinceramente felizes com a minha presença, mas eu só consigo pensar em descobrir um jeito de sair de lá, daquela situação. Explico o que tinha que fazer (?), mas eles vão me acompanhando. Escuto ele dizendo, em tom bem-humorado, algo como “gosto muito dela mas NÃO. TEM. COMO. DAR. CERTO. hahahahha”.***

* Já sei por que: ontem fui assistir uma apresentação em uma rua próxima e tive que deixar o carro no mesmo lugar “de sempre”. Nem sei se continuam lá; dessa vez isso não me deixou inquieta, não me fez suar frio, e nem cutucou aquelas borboletas na barriga (como acontecia até algum tempo atrás). Mas gerou algum desconforto.

** Por que mesmo que eu assisti aquilo? E por que mesmo quero continuar assistindo?! Será que é uma tentativa desesperada de curar algumas feridas? Até sei o motivo da “confusão”: na minha cabeça elas são parecidas. E eu sei que elas não são REALMENTE parecidas, mas é que elas têm muitos traços em comum, tipo a altura, o porte físico, a cor dos cabelos e o fato de terem olhos claros. Acho que ele (se é que não a conhece de fato) gostaria dela também.

*** HAHA ¬¬’. (O maldito “haha” virou uma espécie de praga automática incontrolável, que eu não consigo evitar, a menos que me policie muito. Ele atenua até as falas mais tensas — mas será que eu deveria mesmo tentar atenuar certas situações?!)

 *   *   * 

Vez ou outra certas memórias voltam (ou certos sonhos acontecem), e eu não posso evitar que façam alguns estragos.

Não sei se vou ficar “BEM” (sim, em maiúsculas), mas, hoje em dia, já estou muito melhor. De fato. 

Ainda que em alguns momentos (como agora, mas por motivos beeeem diversos) eu sinta que sou um poço de raiva (não “ódio”; “raiva”). Sinto que eu tenho um buraco negro aqui dentro, que de tempos em tempos faz desaparecer as coisas boas e fermenta essa raiva (que vai se acumulando). É isso que, as vezes, me cega e me deixa a ponto de explodir.

Talvez isso seja necessário também: me permitir sentir raiva e mágoa, pra não mais guardar — ou pra guardar só aquelas coisas boas.

A saudade é o tipo de coisa que se guarda e que não morre, assim como certos sentimentos — tal qual a admiração e o amor (estes estão bem vivos, sim, senhor).

Acho (espero?) que ainda vai levar um tempo até acontecer um outro sonho como esses. 

Já as memórias voltam bem mais (ainda que hoje em menor frequência); tô lidando relativamente bem com elas.

Mas hoje eu queria um abraço; hoje tá difícil.

(no parque hoje uma menina passou com uma camiseta que dizia “you make me happy when skies are gray”; não lembrei de imediato, mas comecei a cantarolar o trecho e logo me veio. Foi um outro que me mandou essa música uma vez, mas acho que por causa disso tudo mais uma vez foi de você que eu lembrei. Os próximos cem metros foram pensando nisso e em você.

“…please don’t take my sunshine away”)

Você pode ir na janela

“Você só me fez mudar
Mas depois mudou de mim!…
Você quer me biografar
Mas não quer saber do fim

Mas se vai…
Você pode ir na janela
Pra se amorenar no sol
Que não quer anoitecer
E ao chegar no meu jardim
Mostro as flores que falei

Vai sem duvidar,
Mas se ainda faz sentido, vem
Até se for bem no final
Será mais lindo
Como a canção que um dia fiz
Pra te brindar…”

Alô, nostalgia. O coração inquieto manda, sempre e cada vez mais, abraços apertados. 

Sinto sua falta (ou “Um guia sincero para os visitantes desavisados do Jardim Botânico de Curitiba”)

Jardim Botânico (inverno 2015)

Sábado, 11/07/2015, 23:10

*    *    *

Domingo, 19 de julho, por volta das 8 da manhã:

Dizem os mais antigos que “neblina que baixa, sol que racha”. Ainda está muito cedo pra garantir como será o resto do dia. Mas ainda está fazendo 12ºC, e é assim mesmo que eu prefiro.

*    *    *

O Jardim Botânico de Curitiba é o típico lugar para se levar um parente ou uma visita de fora. Mas pra passear também. Provavelmente é, até hoje, o maior ponto turístico da cidade.

O parque foi aberto em 1991, e se encontra bem próximo do centro da cidade, em frente a um dos campi da tradicionalíssima (cof cof) Universidade Federal do Paraná. Há uma estufa enorme, com três domos; sua armação é feita de vidro e ferro na cor branca. Em datas “comemorativas”, de noite, ela é iluminada por diferentes cores. Nos outubros a estufa é rosa, e, durante a copa do ano passado, foi verde e amarela (não ajudou muito, no entanto), por exemplo.

Dentro da estufa há espécies da flora da mata atlântica. É engraçado olhar de fora; parece que as plantas são como sombras por trás dos vidros, embaçados de sujeira e neblina. As folhas – principalmente as das palmeiras – aparecem como formas meticulosamente recortadas. Mas lá dentro a vida explode, nos diferentes tons de verde das bromélias (com seus microhabitats em meio líquido por entre as folhas do centro) e ananases levemente rosáceos. Só é um pouco triste (para mim) pensar que um dia aquelas plantas não poderão crescer mais – tal qual dizem que ocorre com peixinhos dourados em aquários (?).

Há ainda uma escada em espiral (que eu não pude deixar de comparar com as voltas das conchas de moluscos – mais especificamente das de Nautilus, com suas pequenas câmaras internas. Talvez isso tenha a ver com a formação paleontológica que um dia eu sonhei pra mim) que nos leva ao primeiro andar (lembro que quando eu era pequena sentia certa agonia ao olhar pra baixo e ver tudo por entre as grades), o qual permite ainda uma visão mais elevada do mosaico à frente.

Sim, em frente a estufa há um jardim com desenho inspirado nos célebres jardins franceses e pelo menos duas fontes (acho que varia de pessoa para pessoa o critério, haha). Em uma delas há uma estátua, de uma mulher segurando uma pequena criança; esta é, aliás e definitivamente, uma das fotos mais tiradas de quem vai até lá.

Há, no final do jardim, um bonito portal, que parece estar sendo tomado pelas flores. Por falar nelas: há muitas cerejeiras plantadas no caminho que nos leva do portal ao estacionamento. Neste momento elas estão floridas, e as pequenas flores de cinco pétalas e diferentes tons de rosa salpicam os galhos e a grama ao redor.

Por entre as formas geométricas do jardim e por todo o parque há muitas trilhas, por onde as pessoas passeiam (cedinho, de manhãzinha, elas costumam andar ou correr, e há ainda formandos, noivos e casais grávidos que utilizam o parque como pano de fundo para registrar suas recordações – que eles provavelmente esperam que durem pra sempre), e bancos aqui ou ali.

Há, se não me engano, dois lagos, um museu botânico, um espaço para exposições (atualmente fechado), e outro espaço mais “restrito”, chamado de “jardim das sensações” (o nome é autoexplicativo, creio eu). Existem muitos gramados. E nos domingos de tarde cada árvore parece ser praticamente desenhada para ser a sombra de um casal. Há quadras de tênis, canchas de futebol, um velódromo… o que mais?!

Humm… Muitas espécies nativas, tanto da fauna quanto da flora. Se você for lá bem cedo há de encontrar cutias, jacus e saracuras, por exemplo. Fora os patos e peixes que nadam sob a ponte do museu.

No domingo passado vi um(a?) jacu muito entretido(a?) com o seu reflexo em um bebedouro. Me fez recordar das aulas de etologia na universidade; mas, naquele caso, o professor falou de aves bem menores, passeriformes. Parei por uns dois minutos, após arriscar uma corridinha de alguns metros, e fiquei olhando a cena, quase que hipnotizada. Mas logo saí, porque havia quem já me olhasse com estranhamento.

Ah, os curitibanos, naturalmente… São espécimes deveras curiosos e de modos de vida gritantemente diferenciados do resto dos espécimes nacionais (e mundiais, por que não).

Andando por uma das trilhas vi uma cascata alaranjada de flores-de-São-João (devo admitir que o Google me deu uma mega ajuda com o nome das espécies – afinal, acho que a biologia já é mesmo um capítulo do meu passado); estava linda. Perto desse trecho há um terreno que, acredito eu, é agora baldio. Os tapumes que o separavam do parque não resistiram ao peso das (prováveis) heras que crescem abundantemente, e parte deles caiu. Meio tenso, mas enfim; suspeito que devem haver câmeras aqui ou ali – e volta e meia me pego pensando nisso: “será que nos assistem? Tipo: ‘ah, essa aí não vem sempre, mas aquele vem com sol ou chuva!’. Grande irmão, você está aí? Estamos fazendo nossos exercícios matinais!”.

Mais pra frente, dentro da mata cercada, há pelo menos uma araucária muito grande; o que me chamou a atenção, desde a primeira vez que vi uma delas, foi o fato de que sua epiderme (quantos anos levou para chegar até este ponto?!) já está se desprendendo. Grandes pedaços se encontram quase caindo, e sabe-se lá o pouco que ainda os segura.

Não sei como são os outros dias, mas ao ir lá no domingo, por volta das sete e meia, é praticamente garantido ver e ouvir o trem passar. Pois sim: no meio da cidade você ainda vê dessas. Ele passa, longo e longamente, num compasso que parece acompanhar a morosidade de um típico domingo. Apita religiosamente naquele horário, feito um cuco (outrora) a vapor.

Mas tudo isso é, na verdade, não mais que uma mera introdução; acho que agora já dá pra explicar do que me lembro quando penso no parque.

A natureza me encanta – sempre me encantou –, é verdade. Mas desde o momento em que decido ir (em definitivo só na noite do dia anterior), até o momento em que entro no carro e saio de lá, é uma “obra de homem” o que mais mexe com a minha cabeça. E nem fica do lado de dentro do parque.

Seguindo por uma pequena rua lateral, que sai da BR 476 (logo após passar sobre a rua Maurício Fruet), há, no concreto da estrutura do viaduto (que é a continuação da BR 277 – o que acho que já consta como Avenida Prefeito Lothário Meissner), em letra caprichada e com um pequeno coração, uma singela mensagem em três palavras.

E eu tento imaginar a pessoa que fez aquilo e no que (ou melhor, em quem) ela pensava quando fez aquilo e em como deve ter sido aquele dia (ou noite) – aliás, em como foram os dias antes e depois daquilo – e se ela estava acompanhada ou (provavelmente) só e em qual história ela devia carregar na cabeça e quais sentimentos carregava no peito e se ela ainda se lembra desta mensagem que deixou e… e daí eu começo a pensar em mim. E de quem eu me lembro e porque (ainda!) me lembro e porque essa mensagem me diz tanto e…

Se algum dia alguém me perguntar “Mas o que, na sua opinião, há de mais interessante no Jardim Botânico de Curitiba?”, ainda que eu responda de outra forma, acho que a resposta mais sincera é: “não sei, mas lá, PRA MIM, há saudade”.

Sinto sua falta*Sinto mesmo; ontem, hoje, amanhã e sempre.*