“Música ao longe”*

Quando a música começou a tocar nesta quinta-feira chuvosa eu não a pulei. Esta foi, provavelmente, uma das primeiras vezes (se não A primeira) que eu a deixei tocar sem sentir (muita) dor.

Descendo pela Desembargador Motta no trânsito das 6 e pouco da tarde (e sob chuva, o que só piora mais ainda a situação) eu cantei junto, e pelo resto do caminho continuei pensando.

“Talvez esse fosse o jeito dele de tentar, ainda que de maneira dominante, estabelecer conosco algum laço mais palpável”, pensei comigo mesma ao entrar na Getúlio Vargas. “Dominante” porque foi ele que “escolheu” a música (ou talvez ela o tenha escolhido, não sei), e “palpável” porque eu entendia o seu constante medo de se esquecer das coisas (e das pessoas).

O que pra mim, por mais que fosse compreensível, era contraditório ou paradoxal, porque eu não consigo deixar de me lembrar de nada nem de ninguém.

Me lembrei também dos vocativos carinhosos; não muito depois do fim (aliás, acho que essa ficha caiu quando ainda estávamos juntos – mas eu quase me “recusava” a acreditar, como se este fosse o ultimo “benefício da dúvida”, porque via nele um ser transbordante de carinho, e não achava que ele pudesse ser tão “baixo” assim. Depois, por um tempo, quando a raiva urrou alto, eu cri. No entanto, logo [e hoje ainda] deixei essa crença “certeira” de lado; mesmo que fosse isso mesmo, quem sou eu pra culpar os esforços [de não cagar com as coisas] – provavelmente – sinceros de alguém?) criei a teoria de que os ditos, por serem genéricos, serviriam para todas. Dessa forma ele não cometeria nenhuma gafe do tipo trocar o nome de uma pelo de outra (já que os gostos ele já tinha trocado pelo menos uma vez).

Talvez eu estivesse mesmo certa quanto a isso (afinal, ele nunca percebeu o quanto – por mais que nem eu tivesse uma noção exata de “raso” e “fundo” – eu via com profunda clareza dentro dele), mas a “verdade verdadeira” eu, ao que tudo indica, nunca conhecerei.

Passando (lentamente) ao lado da Ouvidor Pardinho, inclusive lembrando de uma situação na qual passamos por aquelas bandas juntos, pensei que ainda sentia falta. Ainda sinto falta. Mas não sei dizer com certeza se a falta é dele ou de “um alguém”.

O fato é que não me esqueço dele, mas hoje, felizmente, já não penso mais nele com tanta frequência.

Uma hora depois de sair do trabalho e sob muita água (tanta que eu até senti medo enquanto dirigia – só não sei medo exatamente do quê) – água que turvava o vidro e que me lembrou de noites (até mesmo recentes) nas quais adormeci após chorar um bocado, de maneira desconsolada, convulsiva e solitária – cheguei em casa. Senti a falta do cuidado e da preocupação de alguém, e, mais uma vez, senti o peso do (de um?) vazio.

Os pingos gordos caíam com tanta intensidade e abundância que resolvi aguardar um pouco. Pus a mão no teto do carro e pude sentir a violência das gotas atingindo a lataria; “se eu fechar os olhos e me concentrar bastante acho que ainda consigo – com sorte sentir! e – lembrar do teu toque na minha pele (eu ainda lembro do caminho pra tua casa…)”.

Como eu disse pra psico esses tempos: “eu sinto saudades de uma pessoa que não existe mais”.

Aliás, de duas: dele e de mim.

Mas, de qualquer forma, esse sentimento continua – ainda que não intacto, como professam xs poetas -, e eu aprendo diariamente (ainda que a duras penas, e ainda que em alguns dias eu sofra pela sensação de regresso) à lidar com ele.

Sweet eyes, I already miss you. And you only just walked out the door…

*”Música ao longe” é o nome de uma obra de Érico Veríssimo, e que fez parte da minha (pré)adolescência.

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