Bala perdida

21:50, Qui 26/03/2015

Saio em disparada e atravesso tudo o que há no caminho. Paredes, pessoas, água, fogo, terra e ar. Me movimento tão rapidamente que alguns e algumas mal me veem passar.

Não era a minha intenção, realmente. Mas estou ali, seguindo em frente, sem sequer ter como parar.

Nem sei se deveria querer isso. Não sei nem se de fato tenho querer.

Você me vê chegando e o teu coração acelera.

A adrenalina é liberada, mas você estanca, sem reação.

O sangue, que ora corre e pulsa nas tuas artérias e veias, é o que agora tinge a tua camisa branca de vivo vermelho.

Me desculpa; não acho que deveria ser exatamente assim.

Mas é no teu peito que eu vou repousar.

Tudo bem se você cair agora; o chão há de aparar a tua queda.

Agora faço parte de ti; somos um.

Me desculpe também se te faço mais fraco; não foi uma escolha, e, como disse, nem acho que era pra ser. Porém, agora assim será. Assim já é.

Não era você o meu alvo; ainda assim te acertei. Acertei e aceitei. Me aceita também?

Aceita essa sorte incerta – talvez seja melhor assim.

Você me parou; obrigada. É possível que eu vá com você a partir de agora, não importa para onde você há for.

Tentarei não incomodar (ainda mais), mas acho que a lembrança e a marca serão eternas.

No entanto ficarei aqui, quietinha e imóvel, se você me deixar ficar. Essa jornada involuntária já me bastou; agora eu prefiro ficar cravada na tua carne.

Se eu fui uma bala perdida, acho que agora me achei em ti.

Anúncios

“Música ao longe”*

Quando a música começou a tocar nesta quinta-feira chuvosa eu não a pulei. Esta foi, provavelmente, uma das primeiras vezes (se não A primeira) que eu a deixei tocar sem sentir (muita) dor.

Descendo pela Desembargador Motta no trânsito das 6 e pouco da tarde (e sob chuva, o que só piora mais ainda a situação) eu cantei junto, e pelo resto do caminho continuei pensando.

“Talvez esse fosse o jeito dele de tentar, ainda que de maneira dominante, estabelecer conosco algum laço mais palpável”, pensei comigo mesma ao entrar na Getúlio Vargas. “Dominante” porque foi ele que “escolheu” a música (ou talvez ela o tenha escolhido, não sei), e “palpável” porque eu entendia o seu constante medo de se esquecer das coisas (e das pessoas).

O que pra mim, por mais que fosse compreensível, era contraditório ou paradoxal, porque eu não consigo deixar de me lembrar de nada nem de ninguém.

Me lembrei também dos vocativos carinhosos; não muito depois do fim (aliás, acho que essa ficha caiu quando ainda estávamos juntos – mas eu quase me “recusava” a acreditar, como se este fosse o ultimo “benefício da dúvida”, porque via nele um ser transbordante de carinho, e não achava que ele pudesse ser tão “baixo” assim. Depois, por um tempo, quando a raiva urrou alto, eu cri. No entanto, logo [e hoje ainda] deixei essa crença “certeira” de lado; mesmo que fosse isso mesmo, quem sou eu pra culpar os esforços [de não cagar com as coisas] – provavelmente – sinceros de alguém?) criei a teoria de que os ditos, por serem genéricos, serviriam para todas. Dessa forma ele não cometeria nenhuma gafe do tipo trocar o nome de uma pelo de outra (já que os gostos ele já tinha trocado pelo menos uma vez).

Talvez eu estivesse mesmo certa quanto a isso (afinal, ele nunca percebeu o quanto – por mais que nem eu tivesse uma noção exata de “raso” e “fundo” – eu via com profunda clareza dentro dele), mas a “verdade verdadeira” eu, ao que tudo indica, nunca conhecerei.

Passando (lentamente) ao lado da Ouvidor Pardinho, inclusive lembrando de uma situação na qual passamos por aquelas bandas juntos, pensei que ainda sentia falta. Ainda sinto falta. Mas não sei dizer com certeza se a falta é dele ou de “um alguém”.

O fato é que não me esqueço dele, mas hoje, felizmente, já não penso mais nele com tanta frequência.

Uma hora depois de sair do trabalho e sob muita água (tanta que eu até senti medo enquanto dirigia – só não sei medo exatamente do quê) – água que turvava o vidro e que me lembrou de noites (até mesmo recentes) nas quais adormeci após chorar um bocado, de maneira desconsolada, convulsiva e solitária – cheguei em casa. Senti a falta do cuidado e da preocupação de alguém, e, mais uma vez, senti o peso do (de um?) vazio.

Os pingos gordos caíam com tanta intensidade e abundância que resolvi aguardar um pouco. Pus a mão no teto do carro e pude sentir a violência das gotas atingindo a lataria; “se eu fechar os olhos e me concentrar bastante acho que ainda consigo – com sorte sentir! e – lembrar do teu toque na minha pele (eu ainda lembro do caminho pra tua casa…)”.

Como eu disse pra psico esses tempos: “eu sinto saudades de uma pessoa que não existe mais”.

Aliás, de duas: dele e de mim.

Mas, de qualquer forma, esse sentimento continua – ainda que não intacto, como professam xs poetas -, e eu aprendo diariamente (ainda que a duras penas, e ainda que em alguns dias eu sofra pela sensação de regresso) à lidar com ele.

Sweet eyes, I already miss you. And you only just walked out the door…

*”Música ao longe” é o nome de uma obra de Érico Veríssimo, e que fez parte da minha (pré)adolescência.

Once

“Are you really here, or am I dreamin’?
I can’t tell dreams from truth
For it’s been so long since I have seen you
I can hardly remember your face anymore

When I get really lonely
And the distance causes only silence
I think of you smiling
With pride in your eyes
A lover that sighs”

Why do I still cry? What is there to miss?

I just want to get some sleep… If you’re there, just give me that. One night; that’s all I ask.