The darkest hour

0:41, Dom 16/11/2014

“The darkest hour is just before the dawn”.

‘Não fale com os mortos.

Nunca te ensinaram que um dia eles podem responder?’

Ele abriu a porta, e continuamos a conversa no corredor. Ela saiu, andou um pouco, veio caminhar por entre as minhas pernas, e se esfregar na minha calça. Deixou em mim muitos fios de seu pelo branco.

Ele ficou com “ciúmes”, e disse que ao meu redor devia haver espíritos bons. Meu olhar perdido fez com que ele respondesse “Você não sabia? Gatos não se aproximam quando os espíritos são ruins”.

Não acreditei, e nem deixei de acreditar. Um silêncio muito calmo e resignado ecoou dentro de mim.
É isso que chamam de ‘agnosticismo’, não? Ótimo. Era só mais esse rótulo que me faltava: heterossexual (eu acho, haha), cisgênero, simpatizante de várias lutas, (projeto de) feminista, pró-escolha, inclinada para a esquerda (literalmente, inclusive, segundo o raio X da minha escoliose), portadora de transtornos, estressada, tatuada, raspada, solitária, vazia e… agnóstica.

No caminho pro ponto fui andando desajeitadamente, tentando limpar de mim o pelo. Os chumaços voaram naquela manhã fria que fez na sexta.

A introvertida delirante falou mais alto; antes mesmo de chegar o ônibus eu já havia me fechado em mim.
Cheguei em casa, tomei um banho, e fui cozinhar. Não estava com fome, mas me pareceu ser um interessante tapa-buraco (não fosse o buraco existencial, talvez tivesse dado certo).
Me sentei ao sofá com a TV desligada. Acendi um cigarro (maldito hábito adquirido), e enchi o copo à minha frente, com chá gelado e vodka.

Nenhum dos dois quis sequer se aproximar; logo eles, que me receberam sempre tão bem (sabe-se lá porquê).
Os meninos chegaram, muito tempo depois. Disse a eles da comida na cozinha. Eles agradeceram, comeram, elogiaram o tempero, e foram se arrumar; “A gente vai sair. Vamos?”.

“Não, obrigada. Hoje não”. Eles insistiram um pouco, mas logo desistiram.

Acho que eu entrei em uma espécie de transe. Comfortably numb.

Não me lembro do que aconteceu nesse meio tempo, mas lá pelas 4, quando eles abriram a porta, eu ainda estava sentada, na mesma posição. Somente a luz do corredor estava acesa, e a luz da lua é que iluminava um pouco a sala.

O maço, ora cheio, já se encontrava amassado no chão. O chá já não estava mais gelado, e a garrafa de vodka estava pela metade.

Eles me estenderam as mãos e disseram que me levariam pra cama. Eu não quis; se eu levantasse, sabia que o mundo giraria ao meu redor, e a comida, inutilmente ingerida, seria expulsa pra fora.

O ar parecia estar mais denso e abafado, ainda que não estivesse quente.

Parecia haver eletricidade palpável no ar – a qual poderia, a qualquer movimento mais brusco, explodir o apartamento devido a minha inquietação crescente.

“Então a gente vai ficar aqui com você. Tá afim de conversar? Quer dizer… Aconteceu alguma coisa?”.

“Não, obrigada”. Nem sabia o que responder na verdade.  Uma névoa parecia embaçar a minha visão e eu sequer sabia o que estava sentindo. “Amanhã, talvez. Por ora talvez seja mais seguro que mantenhamos o silêncio”.
Um deles exprimiu o som claro que precede uma expressão de confusão, mas, ao olhar do outro, resolveu se calar também. Assim ficamos até que os primeiros raios de sol entraram pela janela.

Então eles vieram: ele se sentou no meu colo. Ela, mais desconfiada, se sentou um pouco mais longe – mas perto o suficiente para que minha mão conseguisse alcançá-la e acariciá-la.

Senti que o “sensor” deles estava falhando: nem todos os espíritos ruins haviam ido embora com o fim da noite.

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