Reflexões hospitalares – no Pronto Atendimento

0:58, Qui 11/12/2014

Eu não sei o que exatamente os códigos significam, mas eu me lembro dele falando em “crise de stress aguda”. Tenho um atestado pra amanhã, que ainda não sei se vou usar.

“Eu fiquei confusa porque ela tem o mesmo nome que o seu”, e me mostrou a carteirinha do plano da mulher pouco antes internada. Quais eram as chances?! Até a grafia era a mesma!

“Ela sou eu amanhã”; dei uma leve dramatizada, mas nem sei por que ela estava lá. Vai que era mais ou menos isso mesmo?!

“O nome do doutor que vai te atender é o mesmo nome da tua rua. Quanta coincidência!”. Realmente; duas em seguida. Não que significasse qualquer coisa também; nem tudo tem sentido.

Enquanto isso meu estômago cozinhava em fogo baixo, vez ou outra latejando mais – acompanhando o ritmo da minha dor de cabeça.

A azia começou instantaneamente após um stress no trabalho, poucas horas antes. Mas a verdade é que ela só veio coroar tantas outras dores e sintomas de mal estar sentidos ao longo deste ano.

“Até quando eu vou permitir que isso aconteça?” eu me pergunto, enquanto vejo a medicação escorrendo pela mangueirinha.

“Isso vai deixar um hematoma…”, apesar da falante enfermeira dizer que não. Ela era muito gente boa – e fiz questão de dizer isso a ela, antes de dar boa noite e ir embora –, apesar de estar me incomodando de leve a sua insistência em certas perguntas. Era só zelo e prudência no final das contas: “Você não tem alergia a Dipirona mesmo, né?”, pela quarta ou quinta vez, antes de, certeiramente (devo admitir), achar uma veia boa: “Eu logo vi quando você tirou o braço do casaco, na pré-consulta, que não tinha nenhuma veia aparente”.

O médico também foi legal. Até… Pra um médico (mentira minha; foi sim). Me tirou umas dúvidas, me deu uns toques, mas me fez chorar quando disse que eu deveria me acalmar; chorei porque lembrei do outro médico, ainda em abril, me dizendo o mesmo e me aconselhando a mudar certos hábitos e trabalhar menos. “Como se fosse possível”, pensei, mas respondi “Poxa, que bom! Você está contratando?!”.

Chorei porque não aguento mais ninguém me dizendo “Calma…”, ainda mais sendo esta a última coisa que eu conseguiria fazer agora.

Ele me disse algo como “Não… Que isso… Não gosto de ver mulher chorando”. O comentário não poderia ter sido mais ofensivo, mas não levei para esse lado (não hoje): ficou claro que ele só queria me tranquilizar e tentar me ajudar a esquecer.

“O sistema é injusto, infelizmente, mas você vai aprender que às vezes a gente tem que deixar nas mãos de Deus”. Um médico que acredita em Deus… Era só o que me faltava!

Dentro da minha cabeça ecoou ensurdecedoramente “DEUS NÃO EXISTE!!!”, enquanto eu saía daquela sala e me encaminhava pra outra, onde o soro com a medicação me seria administrado.

Foi rápido mesmo. Mas agora, menos de 3 horas depois, a minha cabeça já doi novamente e o estômago volta a queimar um pouco. Parece que as maçãs do rosto vão começar a ranger, de tanto desconforto. Não sei dizer onde doi, porque eu sinto mais de um lugar. O hematoma está pequeno, mas vou ter que esperar até amanhã pra ver como vai ficar.

O que eu estou fazendo? Por que diabos continuar com isso? Ou qualquer outra coisa?! Ainda que eu alcance qualquer um dos meus poucos objetivos eu logo vou pôr tudo a perder mesmo!… não vou? Parece ser esse o meu “dom”: eu estrago tudo.

E nem é voluntário ou por prazer – até onde eu consigo visualizar.

“Respira, Xxxxxxx”. Sim, eu preciso respirar. E tentar manter o (ou algum, pelo menos) foco.

“Não se precipite!”, ele me disse. Mas será que já não passou da hora?! “Calma…”. Calma?! Eu quero mais é explodir – e levar todo o resto junto comigo!

Chega. Eu preciso acabar com isso – antes que (alerta clichê!) isso acabe comigo ou que eu enfim ceda de vez.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”, disse Hamlet. Mas, logo após esta constatação, não restou ninguém além dos coveiros para contar essa história.

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