Fragmento 3 – Sobre as memórias, o tempo, os sonhos, o surreal e o cansaço

22:21, Sex 19/09/2014

Não vou conseguir me lembrar de todos os pormenores daquela noite. Mas me lembro de estar vestindo um moletom cinza escuro, e de lhe fazer cafunés e carinhos na cabeça, que repousava sobre o meu peito. Adorava quando ficávamos assim; me sentia inexplicavelmente bem quando sentia o corpo dele sobre o meu.

Ele me disse que eu tinha um cheiro “curioso” (não lembro exatamente do adjetivo, mas era um positivo), que lhe remetia a algo bom: a casa de praia da avó, se não me engano. Acho que é por isso que, nesta cidade “esquecidinha” na baixa temporada, me lembro disso agora; não foram poucas as vezes que desejei que ele estivesse aqui, pra dividir com os meus olhos as visões bonitas das praias encantadoras que eu conheci.

Ele disse que eu e a avó nos daríamos bem; eu só precisaria ajudá-la a secar a louça e falar da novela com ela. Isso me pareceu mais do quesimples de se cumprir. E, ao mesmo tempo, tão desejável! Eu quis muito que aquilo acontecesse (por mais que me fosse clara a improbabilidade daquilo), e por alguns segundos visualizei aquela cena naquela mesma noite.

Eu queria lhe cantar uma música, mas já era madrugada; de certo que havíamos tomado banho depois de ter dormido juntos, e eu estava, numa daquelas sessões que já estavam se tornando costumeiras, lhe contando do meu passado e das ideias que me povoavam secreta e silenciosamente a imaginação.

Eu declamava baixinho “Sail away with me honey, I put my heart in your hands… Sail away with me honey now, now, now. Sail away with me, what will be, will be. I wanna hold you now, now, now…”. E tenho certeza de que os meus olhos ficaram mais úmidos, e vez ou outra eu engasguei um pouco, por saber que a minha entrega era plena – ou também, quem sabe, por saudade premeditada –, assim como agora.

Que ou quem é que explica o conceito de “tempo”? Há tantos clichês acerca, ou até mesmo “verdades” científicas para descrevê-lo, mas não parece haver um consenso, ou uma raiz de onde brote todo o sentido.

Vêm levando mais tempo pra esquecer do que para conhecer. Foram sete meses. E agora já faz nove; exatamente hoje faz nove. Como pode? E por que pode?!

Também nem sei mais se de fato conheci, ou o que/quem conheci. Muitas memórias continuam mais do que vivas; algumas delas (assim como a de hoje) saem de seus esconderijos, e escancaram facetas já meio esquecidas. Outras são revisitadas constantemente – mais até do que eu gostaria.

Mas elas todas já se encontram mais e mais distantes, como se sobre elas já houvesse um manto, ou uma névoa daquelas que nos confundem (n)os sonhos. É como se eu visse aquilo, mas tivesse cada vez menos certeza se de fato ocorreu ou não; é como se parecesse cada vez mais surreal.

Não sei como eu de fato me sentiria se descobrisse que foi só isso mesmo, um sonho. Muitas vezes desejei que fosse isso (pra que eu pudesse acordar, me dar conta de que foi só a minha imaginação, e tocar em frente).

Mas, ao mesmo tempo, essa possibilidade me assusta e me entristece: se foi só um sonho, isso quer dizer que também não tive certos momentos tão bons.

Quanto tempo levará ainda pra superar? O que é mais importante agora: ter essas memórias todas, ou apagá-las em definitivo? O que eu poderia trocar pelo meu esquecimento? E se eu realmente pudesse trocar algo, será que eu faria isso?

Mais perguntas sem resposta.

Menos respostas, que eu tanto precisava ouvir, mas que (muito provavelmente) nunca ouvirei.

Eu acho mesmo que quero esquecer. Tô cansada de me lembrar de tanta coisa – das mesmas coisas, na verdade. Sempre. Over and over again. Tô cansada de me sentir como a personagem de um drama mexicano. Ou a “mocinha” rejeitada de algum filme tosco hollywoodiano. Tô cansada de estar cansada.

Mas, ainda assim, temo esquecer – porque sinto que no lugar vai ficar um vão – um vazio sem remendo.

Merda. Eu (ainda) não sei o que fazer. Eu só queria descansar.

Fazia algum tempo que eu não chorava.

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