Fragmento 2 – Raiva

 

0:12, Qua 10/09/2014

A raiva é cega e surda, mas nem sempre é muda; ela, na verdade, pode gritar muito alto – alto ao ponto de os pulmões se esvaziarem e se secarem –, em tentativas desesperadas de, enfim, se fazer ouvida.

A raiva é também hipnotizante e, até certo ponto, entorpecente – tanto pra quem a sente e demonstra quanto para quem a recebe.

Se permitirmos, há um momento no qual a gritaria e a violência já não são mais percebidas: elas se tornam um ruído branco, ou uma memória cada vez mais apagada de algo que antes estava (“estava?!”) lá.

Então, talvez (dependendo do motivo, é claro), sentir raiva não seja tão ruim assim. Quem sabe isso seja um sinal de que a rotina não acabou de te oprimir e silenciar, e que você ainda luta, com o que lhe restou de força, gás, princípios e valores, contra o conformismo – que ora parece uma boca faminta, que tenta nos engolir mais e mais a cada dia, e ora parece uma piscina profunda, na qual, as vezes, nos permitimos nos afogar, sem sequer lutar pelo fôlego.

 

“A raiva é um sentimento muito poderoso, porque ele pode ser transformador”. Theo Cecatto, personagem de ZéCarlos Machado, em “Sessão de Terapia”.

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