The “Not Me”

Dear Francesca,
if, by any chance, you are reading this, forgive me, for I took the liberty of using your title and idea to name this text.
In it I describe how I think my life would have been if I made one different decision seven years ago.
Therefore, I think of this as the description of “not me”.
Thank you for another great insight.
Sincerely,

Be quiet.

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Fragmento 3 – Sobre as memórias, o tempo, os sonhos, o surreal e o cansaço

22:21, Sex 19/09/2014

Não vou conseguir me lembrar de todos os pormenores daquela noite. Mas me lembro de estar vestindo um moletom cinza escuro, e de lhe fazer cafunés e carinhos na cabeça, que repousava sobre o meu peito. Adorava quando ficávamos assim; me sentia inexplicavelmente bem quando sentia o corpo dele sobre o meu.

Ele me disse que eu tinha um cheiro “curioso” (não lembro exatamente do adjetivo, mas era um positivo), que lhe remetia a algo bom: a casa de praia da avó, se não me engano. Acho que é por isso que, nesta cidade “esquecidinha” na baixa temporada, me lembro disso agora; não foram poucas as vezes que desejei que ele estivesse aqui, pra dividir com os meus olhos as visões bonitas das praias encantadoras que eu conheci.

Ele disse que eu e a avó nos daríamos bem; eu só precisaria ajudá-la a secar a louça e falar da novela com ela. Isso me pareceu mais do quesimples de se cumprir. E, ao mesmo tempo, tão desejável! Eu quis muito que aquilo acontecesse (por mais que me fosse clara a improbabilidade daquilo), e por alguns segundos visualizei aquela cena naquela mesma noite.

Eu queria lhe cantar uma música, mas já era madrugada; de certo que havíamos tomado banho depois de ter dormido juntos, e eu estava, numa daquelas sessões que já estavam se tornando costumeiras, lhe contando do meu passado e das ideias que me povoavam secreta e silenciosamente a imaginação.

Eu declamava baixinho “Sail away with me honey, I put my heart in your hands… Sail away with me honey now, now, now. Sail away with me, what will be, will be. I wanna hold you now, now, now…”. E tenho certeza de que os meus olhos ficaram mais úmidos, e vez ou outra eu engasguei um pouco, por saber que a minha entrega era plena – ou também, quem sabe, por saudade premeditada –, assim como agora.

Que ou quem é que explica o conceito de “tempo”? Há tantos clichês acerca, ou até mesmo “verdades” científicas para descrevê-lo, mas não parece haver um consenso, ou uma raiz de onde brote todo o sentido.

Vêm levando mais tempo pra esquecer do que para conhecer. Foram sete meses. E agora já faz nove; exatamente hoje faz nove. Como pode? E por que pode?!

Também nem sei mais se de fato conheci, ou o que/quem conheci. Muitas memórias continuam mais do que vivas; algumas delas (assim como a de hoje) saem de seus esconderijos, e escancaram facetas já meio esquecidas. Outras são revisitadas constantemente – mais até do que eu gostaria.

Mas elas todas já se encontram mais e mais distantes, como se sobre elas já houvesse um manto, ou uma névoa daquelas que nos confundem (n)os sonhos. É como se eu visse aquilo, mas tivesse cada vez menos certeza se de fato ocorreu ou não; é como se parecesse cada vez mais surreal.

Não sei como eu de fato me sentiria se descobrisse que foi só isso mesmo, um sonho. Muitas vezes desejei que fosse isso (pra que eu pudesse acordar, me dar conta de que foi só a minha imaginação, e tocar em frente).

Mas, ao mesmo tempo, essa possibilidade me assusta e me entristece: se foi só um sonho, isso quer dizer que também não tive certos momentos tão bons.

Quanto tempo levará ainda pra superar? O que é mais importante agora: ter essas memórias todas, ou apagá-las em definitivo? O que eu poderia trocar pelo meu esquecimento? E se eu realmente pudesse trocar algo, será que eu faria isso?

Mais perguntas sem resposta.

Menos respostas, que eu tanto precisava ouvir, mas que (muito provavelmente) nunca ouvirei.

Eu acho mesmo que quero esquecer. Tô cansada de me lembrar de tanta coisa – das mesmas coisas, na verdade. Sempre. Over and over again. Tô cansada de me sentir como a personagem de um drama mexicano. Ou a “mocinha” rejeitada de algum filme tosco hollywoodiano. Tô cansada de estar cansada.

Mas, ainda assim, temo esquecer – porque sinto que no lugar vai ficar um vão – um vazio sem remendo.

Merda. Eu (ainda) não sei o que fazer. Eu só queria descansar.

Fazia algum tempo que eu não chorava.

Sail Away

“Oh, all the times I tasted love
Never knew quite what I had
Little darling, if you hear me now
Never needed you so bad
Spinning round inside my head…

Sail away with me, honey
I put my heart in your hand
Sail away with me honey now, now, now…
Sail away with me, what will be will be
I wanna hold you now, now, now…”

Divagação 4: sobre as canções (não) ouvidas

1:13, Dom 14/09/2014

Estava na festa dela, quem diria. Essa vida é mesmo… “curiosa”.

Eu escuto as pessoas cantando, também canto um pouco junto, na minha, e então começa uma música especial.

Eu paro. Até a respiração cessa por um momento. Meu olhar se perde, e não só o meu rosto, mas o corpo todo congela na posição.

Lembro que foi numa situação meio incomum e até mesmo engraçada que eu fui apresentada a ela: voltando “alegrinha” de um bar, da “boemia”, em agosto do ano passado, da despedida de uma amiga.

Ele me encontrou no meio do caminho, e voltamos de mãos dadas. Recitou alguns versos, perguntou se eu conhecia (e ficou surpreso quando eu disse que não), e riu da minha cara, porque o meu riso estava fácil, os pés vacilantes, e os pensamentos lentos.

Brinquei que não era eu, e que naquele dia ele iria dormir com o meu alterego.

Acordei antes de amanhecer, numa manhã de sexta, pra pegar um taxi; no entanto, naquela hora, já era eu novamente.

Não sei até agora como essa música não entrou na lista das “dolorosas demais pra se escutar em dias ‘não tão bons'”. Algumas das outras ainda me doem muito, e eu as pulo no celular – mas não as deleto de fato. Pra que sirvam de lembrete, talvez – mas não sei “lembrete” do que exatamente.

Ou talvez eu ainda a escute porque, além de ser linda, ela me traz lembranças de, não só uma noite, mas de toda uma época muito mais do que boa e possivelmente melhor.

Foi nesse mesmo bar que gosto muito que, coincidentemente, a vi meses depois, em maio deste ano.

Ainda sentia muita dor, então, num pré-feriado, chamei uma amiga pra me acompanhar naquela noite. Eu sentia que precisava espairecer, e aquela parecia ser uma ótima oportunidade.

Logo que entramos eu já dei de cara com ela, e tive que me controlar muito para não virar uma estátua no mesmo lugar. Por alguns segundos fiquei muda e sem reação.

Até hoje não sei se ela me viu (e nem acho que saberei). Quando contei ás pessoas sobre o ocorrido, brinquei (mas aquilo bem podia ser verdade): ela me pareceu “tão alta, mas tão alta, que talvez nem tenha me visto!”; sempre fui e pra sempre serei pequena assim. “Pequetita”, ele diria.

Nas fotos havia achado-a mais bonita, mas, mesmo ao vivo, era inegável a sua beleza e a sua presença (até porque ela é a própria personificação da imagem de uma amazona mitológica!).

Fui ao banheiro com a minha amiga, e tentei me ajeitar em frente ao espelho. Me senti literalmente pequena. Muito feia.  Desprezível. Inferior. Abandonada. Fracassada.

Lembrei daquele sonho, com ela. Com eles. Que me fez acordar assustada e ter uma crise de ansiedade tensa. Mas aquilo não haveria de se repetir ali.

Tremendo eu subi para o mezanino, pois precisava me afastar e tentar esquecer. Me frustrei; pensei “até aqui?! Num dos poucos lugares que eu realmente gosto de vir?!”.

Pior do que aquilo só se ele estivesse lá também. Mas me lembrei que ele provavelmente não teria ido, pois não gostava desse tipo de lugar (em mais de uma vez deixou de me acompanhar por isso). Por outro lado, era ela (não eu).

Pedi uma dose e virei de uma só vez. Eu ia dirigir, mas aquilo me pareceu mais necessário, ainda que fosse somente simbólico. Foi só pra tomar “coragem”, eu sei. Entra aí a minha – boa – amiga, que nada falou além de “se precisar eu dirijo”.

Hesitei, mas decidi ficar. Tentei dançar, esquecer (“tentar” e “esquecer” parecem ser sempre as palavras-chave, haha). Caída do céu veio “Dancing with myself”: comecei, com muito esforço, a exorcizar de mim a vergonha e o sentimento de inferioridade, enquanto me movia desajeitadamente e declamava a letra da música a plenos pulmões.

Me lembro de uma outra do Billy Idol, que tem a ver com outro momento. E do Zeca, de novo. Da Corinne. Dos Kooks. Do Geraldo Azevedo. Até do Peninha, bendito!

Lembro do que ele cantou. Do que eu cantei. De tudo o mais que eu deveria e queria ter cantado (mas não o fiz, por falta de tempo hábil e por embaraço), e do que a gente deveria ter cantado juntos – mas que não cantou, e nem vai mais.

Agora eu percebo que a playlist é muito grande, assim como todo o resto do acervo das minhas memórias.

Tenho procurado coisas novas, e vez ou outra encontro algo interessante. Mas é difícil me desapegar.

Já está mais do que na hora de descobrir um novo som.

Fragmento 2 – Raiva

 

0:12, Qua 10/09/2014

A raiva é cega e surda, mas nem sempre é muda; ela, na verdade, pode gritar muito alto – alto ao ponto de os pulmões se esvaziarem e se secarem –, em tentativas desesperadas de, enfim, se fazer ouvida.

A raiva é também hipnotizante e, até certo ponto, entorpecente – tanto pra quem a sente e demonstra quanto para quem a recebe.

Se permitirmos, há um momento no qual a gritaria e a violência já não são mais percebidas: elas se tornam um ruído branco, ou uma memória cada vez mais apagada de algo que antes estava (“estava?!”) lá.

Então, talvez (dependendo do motivo, é claro), sentir raiva não seja tão ruim assim. Quem sabe isso seja um sinal de que a rotina não acabou de te oprimir e silenciar, e que você ainda luta, com o que lhe restou de força, gás, princípios e valores, contra o conformismo – que ora parece uma boca faminta, que tenta nos engolir mais e mais a cada dia, e ora parece uma piscina profunda, na qual, as vezes, nos permitimos nos afogar, sem sequer lutar pelo fôlego.

 

“A raiva é um sentimento muito poderoso, porque ele pode ser transformador”. Theo Cecatto, personagem de ZéCarlos Machado, em “Sessão de Terapia”.

Fragmento 1 – Limites

 

22:22, Qua 27/08/2014

Com os olhos marejados e um leve tremor no lábio inferior, ela parou na minha frente. Com o pé pequeno ela traçou uma linha na terra, e me disse, em tom cansado: “É isso. Este é o meu limite. Daqui eu não passo. Eu não consigo passar daqui”.

Eu podia ver, nas gotas de sal que ela insistia em segurar, o quanto lhe doía dizer aquilo, e o quanto aquilo devia vir lhe torturando e lhe cozinhando os miolos.

Meu queixo caiu por um momento, e a má escolha das palavras, somada ao tom da minha voz, evidenciou a descrença e a irritação que me fizeram explodir de dentro pra fora: “E você quer fazer o quê?! Quer sentar aqui, e ver o dia virar noite, e depois dia novamente? Quer parar pra observar as unhas crescerem, as rugas surgirem, os cabelos nascerem brancos, e as juntas enferrujarem? Quer ver a vida pulsando ao teu redor, em eterno movimento, enquanto você fica sentada aqui? É isso que você quer?!”.

 A resposta dela me queimou, como se as palavras saíssem de sua boca feito uma erupção – me perdoa, meu pequeno vulcão; fui leviano ao não reconhecer toda a força da tua natureza: “e que mal há nisso?! Que mal há em ser humilde, admirar a beleza as vezes silenciosa da vida, e se misturar á ela? Por que passar o resto dessa vida maldita e imunda correndo de beco em beco, se temos alguma chance de sermos felizes assim e aqui? Você sabe tão bem quanto eu que só fica satisfeito enquanto sente o ar de novidade. Mas logo que você se acostuma, a ansiedade começa a te devorar as vísceras, e você sente um novo comichão que te faz querer partir. Até hoje não entendo como não deixou de mim! Não seja tão cínico; se há alguém que te conhece até de ponta-cabeça, essa pessoa sou eu”.

E é mesmo, admito.

Mas naquela hora eu não soube o que fazer. Eu só sabia que (pelo menos achava que) gostava imensamente dela.

Mas era isso o bastante?