Feliz Ano Velho 2*

Novamente me encontro naquele pedaço de chão sem dono, caminhando por ele sem saber bem onde estou.

É pouco antes dos olhos se fecharem e se entregarem por completo ao sono; as sombras das memórias reais e dessas ilusões construídas esbarram em mim de propósito conforme passo, mas tenho dificuldade em reconhecer a diferença entre elas (principalmente as últimas).

É o que eu convencionei a chamar de “alucinação”.

Meu coração acelerou por um breve instante ao perceber que eles não estavam mais na minha lista do facebook: “o que eu fiz? A vida de fato me apagou e me deixou pra trás, assim como eu conversava com ela durante esta semana?”. Da mesma forma ele se portou quando, em mais de
um sonho, vi na minha caixa de entrada e-mails que não estavam lá.

Mas ele se acalmou quando percebeu que eu sequer lembrava dos nomes deles (os remetentes dos e-mails, no entanto, eram e ainda me são muito claros) – o que, por si só, não tem nada de calmante.

Enquanto escrevo ainda ouço os fogos e gritos lá fora, em comemoração
ao resultado do jogo, mesmo já sendo muito tarde.

Que linha tênue…

Não lembrar – pruma pessoa que não se esquece de nada! – definitivamente não pode ser um bom sinal…

Quem sabe seja culpa dessa idade estúpida, que insiste em avançar. Dias atrás mesmo a idiotinha se fez presente, ao dar o ar de sua graça.

O que você me traz, cachorra véia, além de doses progressivamente maiores de máculas na pele, dores (no corpo e na alma), e confusão?

Maturidade? Foi isso mesmo que você disse?! Pfff… Passo, sua dissimulada. Você já me traz essa dose em dobro desde a infância. Já te conheço bem, minha velha. Você sim eu reconheço.

Te vejo na demora cada vez maior pra dormir, e nas horas de sono que se tornam mais e mais escassas; nos fiozinhos pioneiros que já crescem brancos nos lados da minha cabeça; na pele que já não é mais tão bonita, lisa e firme;  nas atitudes e palavras cada vez mais pensadas
e (co)medidas; na dificuldade e na preguiça de me envolver.

Minhas costas doem; o quadril e os joelhos também. Os músculos se magoam fácil, e as juntas estralam mais e mais; eles não têm tempo de descansar e de se recuperar.

Sinto que o que é cada vez mais lógico, sensato e responsável é escrever, pra dar voz aos gritos que se abafam nos pulmões (e na mente), e que as travas da língua impedem de ser exorcizados do corpo, e amenizar a angústia sobressalente, que se acumula no cérebro, no
sangue, nos ossos e nas carnes deste corpo.

Tem sido cansativo, mas eu tô dando um jeito (e um sentido). Eu sempre dou.

Mais uma vez, feliz ano velho pra você, guria. Pra nós. “Se pá” nos vemos no próximo.

 

* “Feliz Ano Velho” in Confrade Washington:

http://www.confradewashington.com.br/2014/07/feliz-ano-velho.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s