The Forgetful

“Blessed are the forgetful: for they get the better even of their blunders.” [Friedrich Nietzsche]

 

Eu rogo, NEM QUE SEJA SÓ POR HOJE (praquilo/pra quem for, que estiver aí me escutando – se é que há algo/alguém): me faz esquecer.

 

*   *  *

“Hoje eu lembrei de você, mas menos do que ontem. E amanhã eu vou lembrar de você, mas menos do que hoje. E vai demorar um tempo, eu sei, mas eu vou esquecer de você”.

Eu disse isso a vocês.

Eu ainda lembro.

Não era exatamente uma mentira; na prática foi e tem sido verdade. E afirmo isso com provas: percebi, por exemplo, que agora foi a primeira vez que pensei em você hoje.

Se eu não me segurar um pouco, todas essas memórias me inundam; seja de tirar sarro do vocabulário próprio da cidade de um, enquanto conversamos deitados na minha cama, ou das coisas que tirei uma a uma, de sacanagem, dos bolsos, enquanto o outro as foi colocando no criado-mudo ao lado da cama dele.

Eu esqueço. As vezes. Por um tempo. Mas se me permito lembrar, parece que foi ainda ontem.

E isso faz com que hoje pareça um vazio, um buraco negro que se alimenta de recordações.

Mas não consigo crer que seja o último, porque de tempos em tempos essas memórias saem da deriva e são trazidas em ondas, de volta a minha praia.

E eu sequer sei mais se de fato quero esquecer…

Seria tão mais fácil!… blessed are the forgetful.

Mas já descobri que não é assim que funciona; pelo menos não pra mim. Os anos passam e, até então, a minha memória só se torna melhor.

Na verdade mesmo, acho que a presença dessas memórias se torna mais suportável, e eu me acostumo com ela; como lesmas na parede em um dia de chuva (mas, EM GERAL, menos nojentas e/ou incômodas): enquanto eu não lhes der lá muita atenção, por mais que elas estejam sempre lá, a minha vida continua, melhor ou pior, também.

Eu queria ser como vocês… por que eu não posso? Por que eu?!

“?!”.

Haha, lembra? Você disse que ponto de interrogação e de exclamação eram a minha cara.

Acho que não lembra, não…

Tudo bem. Eu lembro.

Você parecia ser um príncipe, e suspeito que de fato seja. Mas a sua pressa me assustou – naquele momento eu não estava preparada pra você.

E com você a pressa não me assustou; eu me entreguei, e até hoje me pergunto se foi cedo demais.

Vocês (todos, na verdade, cada um a sua maneira) também pareciam/parecem ter saído de uma história, mas, por outro lado, foi/é a falta de atitude e de interesse que nos empurra um pra longe do outro.

E você, que eu tanto quis, dez anos atrás? A gente se gostou por um ano inteiro, de uma maneira desesperada que nem só adolescentes têm (a propósito, feliz aniversário; é hoje, eu lembro. Eu sempre lembro), e um mês foi mais que o suficiente pra nós. Juntos. Porque na minha cabeça você ainda ficou por mais algum tempo.

E você, que disse que eu era tão inteligente, forte (?!), que sentia falta dos meus conselhos… se eu consegui de alguma forma te ajudar, por que não consigo fazer o mesmo para mim mesma? E por que você sequer tentou fazer isso por mim também?

A vida mistura os caminhos da gente, e eu me surpreendo a cada vez por encontrar pessoas que parecem ser tão parecidas comigo, ou, no mínimo, que parecem me compreender tão bem. Eu encontro vocês, e me encontro também. Mas daí a vida nos separa, e parece que eu me despedaço mais um pouco.

De alguma forma (ainda misteriosa pra mim) vocês continuam aparecendo, e as coisas ficam “menos ruins”. Só que daí vocês vão embora, e eu me pergunto se um dia a vida não vai parar de me mostrar onde estão vocês.

Vocês todos me trouxeram coisas boas e ensinamentos incríveis – mas também me trouxeram muita dor.

Tudo bem, eu não os culpo. Não mais. Eu acho.

Alguns dias atrás li em um texto algo como “não há como exatamente aplacar essas dores do coração, e tentar esquecê-las só será pior depois. Há que se deixar o coração correr de memória em memória até que, com alguma esperança, uma hora ele se canse”.

“… vai demorar um tempo, eu sei…”. Só espero que não seja muito mais.

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