Divagação 3: sobre a solidão, a dor e coisas tristes

23:21, Qua 16/07/2014

O post do cara que eu sequer conheço foi, curiosamente, pra MIM, a gota d’água.

Porque ele perdeu uma pessoa muito importante – e eu senti que perdi mais uma parte de mim.

As lágrimas começaram a verter instantaneamente. Me senti boba até.

Como eu disse: sei que esse foi o limite, porque a angústia eu já venho carregando e acumulando há dias anos.

Me deu uma vontade voraz e feroz de falar contigo. “Now you’re just somebody that I used to know”, mas, ao mesmo tempo, acho/temo que nunca conheci.

Ainda assim acho que você entenderia: eu sou mesmo uma bosta. Ambulante (na verdade você diria “flamejante”). Sequestradora de ar e recursos. Inútil.

Eu só queria sumir!…

Eu só queria um colo. Desesperadamente.

Eu tô muito sozinha, e ainda não aprendi a pedir socorro – se é que eu deveria fazer isso. E que ninguém venha me dizer que a resposta é óbvia, porque a argumentação já está preparada, e os fatos estão ao meu lado.

Eu ponho aquela música mega “destrutiva” pra tocar, porque eu sei que nessas situações ela me faz chorar ainda mais. E eu sinto que agora é disso mesmo que eu preciso.

Mas será que é muito bobo desejar tão ardentemente alguém pra secar as minhas lágrimas?

Daí eu lembro por que você foi embora. Por que eu te deixei ir embora. Por que “te pedi” pra “ir embora”. Por que você QUIS ir embora…

…e as coisas (e eu mesma) passam a soar menos erradas, e eu alcanço algum equilíbrio de novo: o fato de que (ainda) dói não anula o fato de que provavelmente estávamos certos.

Só continuo achando que a minha “decisão ao contrário” (afinal, eu não queria tomá-la, porque não queria que fosse assim, mas vi que dependia de mim) é mais digna e certa que a tua (logo eu, que QUASE NUNCA estou certa!).

Mas nada disso tudo muda o fato de que agora eu estou aqui sozinha fazendo a faxina (aquela, para a qual você tanto me incentivou e na qual disse que me ajudaria – ou na “pescaria”, se você preferir).

E isso foi a tua maior traição. Quando eu penso nisso meu corpo estremece de raiva e incompreensão; você disse que eu não precisava passar por isso sozinha! Você disse que iria me ajudar!…

Mas você não ajudou. E nem vai ajudar. E eu queria tanto falar com você agora! Não é nem pra te xingar (como eu ainda sinto vontade/que você merece), mas sim pra correr pro teu colo.

A minha solidão tá fazendo o meu corpo doer. De verdade. De novo (lá vem a segunda crise de estresse do ano). E está se manifestando em gotas de sal. Novamente.

Eu tenho que levantar, pra tomar banho e lavar o cabelo, porque depois vou trabalhar. Mas eu não quero levantar da cama – e isso vai além da preguiça (e além da compreensão das pessoas).

Não ligo mais se você ler tudo isso. Até porque não vai fazer diferença: nas tuas finas e delicadas palavras de outrora “já não importa mais”. Seja – ou melhor, continue – como mais um espectador. Até porque, além de não fazer nada, quem sabe nem haja mesmo o que você possa fazer.

Essa é como uma página arrancada do meu diário, assim como aqueles teus textos que esmagaram lentamente o meu espírito no início do ano.

E, bom, the rest is history–SPLIT history.

“Bandeira branca, amor. Não posso mais…”.

 

PS 23/07/14: é possível isso? Há lógica? (ainda) me sentir tão afetada e “incomodada”, mas, ao mesmo tempo, querer tão bem?!

Feliz Ano Velho 2*

Novamente me encontro naquele pedaço de chão sem dono, caminhando por ele sem saber bem onde estou.

É pouco antes dos olhos se fecharem e se entregarem por completo ao sono; as sombras das memórias reais e dessas ilusões construídas esbarram em mim de propósito conforme passo, mas tenho dificuldade em reconhecer a diferença entre elas (principalmente as últimas).

É o que eu convencionei a chamar de “alucinação”.

Meu coração acelerou por um breve instante ao perceber que eles não estavam mais na minha lista do facebook: “o que eu fiz? A vida de fato me apagou e me deixou pra trás, assim como eu conversava com ela durante esta semana?”. Da mesma forma ele se portou quando, em mais de
um sonho, vi na minha caixa de entrada e-mails que não estavam lá.

Mas ele se acalmou quando percebeu que eu sequer lembrava dos nomes deles (os remetentes dos e-mails, no entanto, eram e ainda me são muito claros) – o que, por si só, não tem nada de calmante.

Enquanto escrevo ainda ouço os fogos e gritos lá fora, em comemoração
ao resultado do jogo, mesmo já sendo muito tarde.

Que linha tênue…

Não lembrar – pruma pessoa que não se esquece de nada! – definitivamente não pode ser um bom sinal…

Quem sabe seja culpa dessa idade estúpida, que insiste em avançar. Dias atrás mesmo a idiotinha se fez presente, ao dar o ar de sua graça.

O que você me traz, cachorra véia, além de doses progressivamente maiores de máculas na pele, dores (no corpo e na alma), e confusão?

Maturidade? Foi isso mesmo que você disse?! Pfff… Passo, sua dissimulada. Você já me traz essa dose em dobro desde a infância. Já te conheço bem, minha velha. Você sim eu reconheço.

Te vejo na demora cada vez maior pra dormir, e nas horas de sono que se tornam mais e mais escassas; nos fiozinhos pioneiros que já crescem brancos nos lados da minha cabeça; na pele que já não é mais tão bonita, lisa e firme;  nas atitudes e palavras cada vez mais pensadas
e (co)medidas; na dificuldade e na preguiça de me envolver.

Minhas costas doem; o quadril e os joelhos também. Os músculos se magoam fácil, e as juntas estralam mais e mais; eles não têm tempo de descansar e de se recuperar.

Sinto que o que é cada vez mais lógico, sensato e responsável é escrever, pra dar voz aos gritos que se abafam nos pulmões (e na mente), e que as travas da língua impedem de ser exorcizados do corpo, e amenizar a angústia sobressalente, que se acumula no cérebro, no
sangue, nos ossos e nas carnes deste corpo.

Tem sido cansativo, mas eu tô dando um jeito (e um sentido). Eu sempre dou.

Mais uma vez, feliz ano velho pra você, guria. Pra nós. “Se pá” nos vemos no próximo.

 

* “Feliz Ano Velho” in Confrade Washington:

http://www.confradewashington.com.br/2014/07/feliz-ano-velho.html

The Forgetful

“Blessed are the forgetful: for they get the better even of their blunders.” [Friedrich Nietzsche]

 

Eu rogo, NEM QUE SEJA SÓ POR HOJE (praquilo/pra quem for, que estiver aí me escutando – se é que há algo/alguém): me faz esquecer.

 

*   *  *

“Hoje eu lembrei de você, mas menos do que ontem. E amanhã eu vou lembrar de você, mas menos do que hoje. E vai demorar um tempo, eu sei, mas eu vou esquecer de você”.

Eu disse isso a vocês.

Eu ainda lembro.

Não era exatamente uma mentira; na prática foi e tem sido verdade. E afirmo isso com provas: percebi, por exemplo, que agora foi a primeira vez que pensei em você hoje.

Se eu não me segurar um pouco, todas essas memórias me inundam; seja de tirar sarro do vocabulário próprio da cidade de um, enquanto conversamos deitados na minha cama, ou das coisas que tirei uma a uma, de sacanagem, dos bolsos, enquanto o outro as foi colocando no criado-mudo ao lado da cama dele.

Eu esqueço. As vezes. Por um tempo. Mas se me permito lembrar, parece que foi ainda ontem.

E isso faz com que hoje pareça um vazio, um buraco negro que se alimenta de recordações.

Mas não consigo crer que seja o último, porque de tempos em tempos essas memórias saem da deriva e são trazidas em ondas, de volta a minha praia.

E eu sequer sei mais se de fato quero esquecer…

Seria tão mais fácil!… blessed are the forgetful.

Mas já descobri que não é assim que funciona; pelo menos não pra mim. Os anos passam e, até então, a minha memória só se torna melhor.

Na verdade mesmo, acho que a presença dessas memórias se torna mais suportável, e eu me acostumo com ela; como lesmas na parede em um dia de chuva (mas, EM GERAL, menos nojentas e/ou incômodas): enquanto eu não lhes der lá muita atenção, por mais que elas estejam sempre lá, a minha vida continua, melhor ou pior, também.

Eu queria ser como vocês… por que eu não posso? Por que eu?!

“?!”.

Haha, lembra? Você disse que ponto de interrogação e de exclamação eram a minha cara.

Acho que não lembra, não…

Tudo bem. Eu lembro.

Você parecia ser um príncipe, e suspeito que de fato seja. Mas a sua pressa me assustou – naquele momento eu não estava preparada pra você.

E com você a pressa não me assustou; eu me entreguei, e até hoje me pergunto se foi cedo demais.

Vocês (todos, na verdade, cada um a sua maneira) também pareciam/parecem ter saído de uma história, mas, por outro lado, foi/é a falta de atitude e de interesse que nos empurra um pra longe do outro.

E você, que eu tanto quis, dez anos atrás? A gente se gostou por um ano inteiro, de uma maneira desesperada que nem só adolescentes têm (a propósito, feliz aniversário; é hoje, eu lembro. Eu sempre lembro), e um mês foi mais que o suficiente pra nós. Juntos. Porque na minha cabeça você ainda ficou por mais algum tempo.

E você, que disse que eu era tão inteligente, forte (?!), que sentia falta dos meus conselhos… se eu consegui de alguma forma te ajudar, por que não consigo fazer o mesmo para mim mesma? E por que você sequer tentou fazer isso por mim também?

A vida mistura os caminhos da gente, e eu me surpreendo a cada vez por encontrar pessoas que parecem ser tão parecidas comigo, ou, no mínimo, que parecem me compreender tão bem. Eu encontro vocês, e me encontro também. Mas daí a vida nos separa, e parece que eu me despedaço mais um pouco.

De alguma forma (ainda misteriosa pra mim) vocês continuam aparecendo, e as coisas ficam “menos ruins”. Só que daí vocês vão embora, e eu me pergunto se um dia a vida não vai parar de me mostrar onde estão vocês.

Vocês todos me trouxeram coisas boas e ensinamentos incríveis – mas também me trouxeram muita dor.

Tudo bem, eu não os culpo. Não mais. Eu acho.

Alguns dias atrás li em um texto algo como “não há como exatamente aplacar essas dores do coração, e tentar esquecê-las só será pior depois. Há que se deixar o coração correr de memória em memória até que, com alguma esperança, uma hora ele se canse”.

“… vai demorar um tempo, eu sei…”. Só espero que não seja muito mais.