Testemunho 2

“KGB? Que loucura, cara!…”. Foi o que ele disse, passando pelos distintos cavalheiros (cof cof) que tomam café na Boca Maldita. Ou algo muito parecido. Ou eu é que entendi muito mal – o que não é nem um pouco impossível.

“KGB?…” disse a voz, alta, mas muito agradável, por trás de muita sujeira, trapos e uma cabeleira desgrenhada.

Maldito atraso dos ônibus! Eu queria ter escutado muito mais… Por outro lado, não fosse o atraso, nós não teríamos passado por lá na mesma hora.

Pode ter sido eu daqui alguns anos; um esboço prematuro do meu futuro. Mas estarei eu resmungando sobre o quê? Qual é a parte cabeluda da história ou a teoria da conspiração que mais tem a minha cara?

Muitas vezes acho que nem é loucura ou desvario; é só o que a vida vai fazendo da gente. Ou o que permitimos que ela faça conosco.

Hoje a vi novamente, na Santos Andrade. Eu sei que era ela, porque a minha memória não se perde. E porque ela me marcou (será que também vou virar uma “deslocada” habitué de algum canto? – Bom, pensando bem, já sou).

Mas hoje não chorava. Só andava, a passinhos curtos e lentos, do lado da escadaria pra lateral do prédio histórico. “Também quero sair daqui”, quase disse a ela em voz alta. “E bem rápido”. Ela sim me entenderia.

Mas hoje meus pés, muito machucados pela semana e pelos coturninhos, não me permitiram lá muita agilidade. Cada passo de volta foi dolorido, e cada passo (neste mesmo caminho) me levou de volta para um dia mais dolorido ainda.

Ainda não me sinto confortável ao andar por essas bandas. E nem sei dizer ao certo se um dia voltarei a me sentir assim – dentro, é claro, das possibilidades do que é “sentir-se confortável” pra mim.

“Estou ouvindo pela sua voz… Doente de novo!…”. A repreensão não soou rude ou ofensiva, mas só pude balbuciar um “é…” por entre os dentes de um sorriso amarelo.

Não é uma gripe ou virose que realmente me afligem; nestas duas últimas semanas voltei a passar por aquilo que, por falta de nome melhor ou mais acurado, venho chamando de “alucinação”.

Eu sei que não está lá, durante e depois, e eu digo a mim mesma que não está lá. Mas por que é que não me escuto, e não consigo controlar isso?!

Já não vejo mais como escapar… por mais que seja forte a vontade de tocar o “foda-se” e só deixar rolar, acho que chegou a hora de buscar pelo menos mais uma opinião (“você acha que precisa mesmo de remédios?”. Não!; eu acho que preciso de respostas). Mas já sei que ela não virá sem cobrar de mim seu devido preço.

Resta saber se eu poderei pagar.

Disposta a isso, pelo menos por enquanto, eu estou. Por enquanto.

“KGB? Que loucura, cara!…”. Que loucura.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s