Testemunho

Eu a vi em uma sexta, quando alcancei a XV. Faltava mais ou menos 5 minutos pra minha consulta e quem sabe era só uma cena, pra chamar atenção (até mesmo a de incautos, pois algumas outras pessoas “suspeitas” também miravam-na muito fixamente) – eu disse a mim mesma.

Eu realmente quis fazer algo… até parei. Mas as minhas estúpidas amarras me impediram.

Alguns me dizem/diriam “mas o que você poderia ter feito?!”, ou “você só estava tentando se proteger”.

Tinha aparência humilde, de recursos limitados. Parecia sozinha, perdida; mais até do que eu. Mas o fato gritante é que ela chorava, copiosamente. E eu nada fiz. E isso me fez mal também.

Eu me fiz mal. Também.

Já se passaram no mínimo dois meses, e eu me lembro disso ao menos uma vez por semana.

Eu vi claro sofrimento (seja lá por qual motivo fosse) em outro ser, humano como eu (como eu?!), e eu, estátua insensível, não fiz nada para ajudar.

Mas eu não sou feita de pedra…

Que tipo de ser sou eu, então? Uma mera testemunha? Uma telespectadora
covarde? Audiência da agonia alheia?

Eu estou junto à escória. A escória passiva. Eu presenciei a dor e a angústia já incontroláveis de outro ser similar a mim (mas, de alguma forma, muito melhor) e por elas simplesmente passei.

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