Relicário

… e sem nem saber exatamente como, fui parar em um parque.

Estava cansado, com um pouco de frio (o dia estava, apesar de ensolarado, muito gelado), e sentia, principalmente nos meus músculos, o stress que vinha carregando há tempos. As costas e a cabeça doíam, e sobre os ombros eu sentia uma carga de uma tonelada.

Milhões de frases sem nenhuma cor…

Resolvi sentar e “lagartear” um pouco. Logo percebi que o sol estava  “ardido”, mas gostei da sensação. Ele me esquentava cada vez mais, e o calor ia dissipando a minha tensão e relaxando meu corpo.

O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou…

Parece que, só depois disso, finalmente percebi onde estava. Olhei para o lado, e lá estava ela. Ela olhou pra mim e sorriu, um sorriso reluzente que me aqueceu tanto quanto o sol.

Tive então a nítida impressão de que aquilo se tratava de um sonho.

A sensação só aumentou quando ela falou, como quem continuava uma conversa, “… foi uma boa ideia vir até aqui hoje, né?”.

Sem notar (ou sem dar atenção ao meu rosto surpreso) ela ainda disse:  “não estava nos meus planos, mas provavelmente agora não há lugar melhor pra se estar”.

Concordei com ela, e ambos levantamos o olhar para o céu, por onde voavam agora muitos pássaros. Me perguntei quais eram aqueles, mas eu não tive nem ideia; nunca dei bola pras aulas de biologia, e, na verdade, aquilo nem importava mesmo.

Voltei a olhar pra ela, e mais uma vez me apaixonei por aqueles olhos, que pareciam saltar do rosto quando neles batia o sol. 

A tarde linda que não quer se pôr…

Ela chamou minha atenção para uma flor, para a qual ela apontou, com seu dedo, pequeno e delicado. Mesmo antes do seu “olha que bonita!” eu já sabia que se tratava da sua favorita. A qual nem sua beleza e nem seu aroma se comparavam aos dela.

Voei pra longe. Pro passado?! Quando me voltei, pra dizer a ela “Estava te procurando; senti muito a tua falta”, o frio me alcançou, o céu encobriu, e a chuva caiu, em gordas e congelantes gotas. Mas elas não pareciam me molhar. Com os olhos desesperados procurei por ela, mas ela não estava mais lá.  

O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou… 

A minha frente só vi minha escrivaninha, alguns papéis e canetas, e o meu computador. Ouvi um leve suspiro, me virei para a cama e lá estava ela, deitadinha e bonita, quase adormecendo sobre um livro. Pisquei de novo e esfreguei os olhos, de maneira cartunesca, mas ela também já não estava mais lá.

Vi seu vulto, saindo pela porta, e me levantei em um pulo, mas, quando desembestei pelo corredor, não havia ninguém lá.

Escutei um barulho, vindo do banheiro, e antes mesmo de adentrá-lo vi no espelho um lindo reflexo, que pintava os lábios que eu tanto amava com aquele batom, que ela usava quando queria me provocar. Entrei enfim, e nem sinal de toda aquela estupenda vida havia lá. 

Da cozinha ouvi tampas encaixando em panelas, e senti o cheiro daquela sopa, que só ela sabia preparar. Fui na ponta dos pés, para surpreendê-la e abraçá-la por trás, como eu costumava fazer. Ao chegar lá me deparei com pratos sujos, garrafas vazias de vinho barato e latas de cerveja caídas, embalagens com farelos, mas mais nada havia lá. 

Milhões de vasos sem nenhuma flor…

Mais nada havia lá. Nem cá.

“Estou alucinando em modo multisensorial, veja só… essa é nova.”. 

O que você está dizendo? O que você está fazendo? Por que que está fazendo assim?  

Escutei o barulho da mensagem do celular. Já impaciente e descrente fui olhar. “Tá ocupado? Queria ir aí… A gente podia conversar”. 

O fogo percorreu meu corpo, e eu respondi, sem perder tempo ou hesitar  “VEM!!!”.

“Mensagem enviada”. “Mensagem entregue”. Continuei checando a cada 30 segundos, mas nada havia chegado lá.

Não sei por quanto tempo fiz isso.

Enfim escutei a campainha tocar. O coração perdeu o compasso.

Corri, e abri a porta. 

Como um gatilho sem disparar você invade mais um lugar onde eu não vou…

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