Bichano

Depois de correr pelo quarto inteiro (inclusive pela cama e pelo meu travesseiro), de pular de um lado pro outro, de brincar com o que estava no chão, e de tentar pegar algum bichinho, você veio se deitar também.

Eu estava deitada de lado, e você se encostou na minha barriga, no lado de dentro da conchinha. Nos esquentamos no calor um do outro por um tempo.

Fiquei com dó de levantar pra tomar banho, porque você finalmente estava quietinho, e parecia relaxado e em paz.

Mas quando eu voltei você ainda estava lá. Me deitei com cuidado, pra não te incomodar, mas depois de me arranhar um cadinho, e de morder o meu dedão, que ficou pra fora do lençol, ambos conseguimos dormir um pouco.

Pelo teu tamanho percebi que você não era mais que um rapazinho, esperto e em aprendizado constante, ainda brincalhão.

Na tua perninha machucada e na tua pelagem malhada e diferente eu me vi, e nos teus olhos, profundos e claros, vi ainda mais.

Naquela breve noite acho que fiz as pazes com toda a tua espécie. Percebi que a minha generalização (como a maior parte delas de fato é) foi, não infundada, mas boba, reducionista e elaborada e alimentada por  momentos de stress, “trauma” e até mesmo medo.

E depois fiquei um bocado triste e sentida por não poder te ver crescer. Ainda me pergunto com quem você ficou, se se recuperou e cresceu bem, como se desenvolveu a tua “personalidade”, e se você continua vivo e curioso como quando te conheci.

Me pergunto também se você teve/está tendo mais sucesso do que o teu homônimo; espero que você saiba que pode voar muito alto, mas mais ainda que nunca abandone de fato o chão.

Mas o que eu espero mesmo é que você esteja sendo/seja amado. Espero que você esteja bem.

Lírios

Em cima da mesa estão os lírios, suas favoritas. Não são da cor que eu queria, mas foi o que eu consegui achar. São lindas, ainda assim.

Comprei no mesmo lugar que da outra vez, naquele sábado tão bonito e ensolarado em que eu não precisei trabalhar, depois de sair da casa dele. Lembro daquele senhor chileno, na Osório, me contando uma história do seu passado e me dizendo (enquanto eu esperava vocês) que lírio em espanhol é “azucena”. Que coincidência, né?

Elas estão finalmente se abrindo, mas, infelizmente, você não está aqui agora pra ver. Decidi trazê-las ainda fechadas, pra que não se destruíssem no ônibus, no caminho pra casa.

O cheiro é inconfundível, inunda a sala, a copa e a cozinha, e me faz lembrar você.

Não sei dizer quando foi que a gente se perdeu, nem mesmo qual é a (força da) conexão que ainda nos une. Mas, mesmo que fraquinha e raquítica, de alguma forma, ela ainda está lá.

Assim como a primeira flor que se abriu, mas que já começou a se deteriorar.

Quem sabe enquanto elas estiverem vivas a gente ainda tenha do que falar.

Quando se forem todas… daí eu já não sei. Eu realmente não sei.

Mas elas estão plantadas em um vaso. Enquanto houver terra, as batatas ainda estarão lá. E talvez, um dia, poderão rebrotar.

Copo quebrado

Eu abri o armário da cozinha e ele caiu. Em menos de dez segundos
atingiu e se espalhou pelo chão.

Uma raiva silenciosa e mansa foi se manifestando, à medida que eu ia
me dando conta dos caquinhos marrom-translúcidos que eu via aqui e
ali.

A minha vontade foi de deixar tudo lá. Para que a pessoa realmente
responsável fizesse o serviço quando chegasse em casa, as 3 da tarde,
nove horas depois. Ela que desse jeito no “corpo”.

“Isso é pressa! É falta de cuidado e de atenção de quem guardou!”, pensei.

“Era uma coisa de vidro, que, por mais supostamente frágil que fosse,
a princípio, tinha potencial para durar uma vida toda”, pensei ainda
enquanto, vencida, eu varria e catava os cacos.

“Mas isso é também falta de sorte… ou o formato… sei lá”, pois eu
já tinha visto pires e pratinhos do mesmo material caírem e quicarem
no chão, sem de fato se espatifar.

Um trincado, uma rachadura, um quebradinho num canto; mas tinham
sobrevivido pra contar a história.

Eu os embrulhei com cuidado, para que quem os manuseasse depois não
corresse o risco de se machucar.

Aceitei que, não fosse hoje, ou naquela hora, poderia ter sido amanhã
ou depois. Mas que, de fato, ele provavelmente não ia durar pra
sempre.

Até porque, mesmo que mal e porcamente, eu lembro da professora do
ensino médio tentando nos ensinar que a energia potencial tem a
capacidade de se tornar cinética. Ou seja, a energia do que está (ou
parece estar?) em repouso em alguma hora não tão mágica pode se
converter em movimento.

Joguei tudo no lixo, como se isso pudesse levar embora também todas
essas ideias e conexões bizarras.

Tomei o meu café, subi, e fui acabar de me arrumar, pra sair de casa
como se nada tivesse acontecido.

Mas, mesmo mantendo isso em silêncio, eu sabia que sim. Eu sei.

Relicário

… e sem nem saber exatamente como, fui parar em um parque.

Estava cansado, com um pouco de frio (o dia estava, apesar de ensolarado, muito gelado), e sentia, principalmente nos meus músculos, o stress que vinha carregando há tempos. As costas e a cabeça doíam, e sobre os ombros eu sentia uma carga de uma tonelada.

Milhões de frases sem nenhuma cor…

Resolvi sentar e “lagartear” um pouco. Logo percebi que o sol estava  “ardido”, mas gostei da sensação. Ele me esquentava cada vez mais, e o calor ia dissipando a minha tensão e relaxando meu corpo.

O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou…

Parece que, só depois disso, finalmente percebi onde estava. Olhei para o lado, e lá estava ela. Ela olhou pra mim e sorriu, um sorriso reluzente que me aqueceu tanto quanto o sol.

Tive então a nítida impressão de que aquilo se tratava de um sonho.

A sensação só aumentou quando ela falou, como quem continuava uma conversa, “… foi uma boa ideia vir até aqui hoje, né?”.

Sem notar (ou sem dar atenção ao meu rosto surpreso) ela ainda disse:  “não estava nos meus planos, mas provavelmente agora não há lugar melhor pra se estar”.

Concordei com ela, e ambos levantamos o olhar para o céu, por onde voavam agora muitos pássaros. Me perguntei quais eram aqueles, mas eu não tive nem ideia; nunca dei bola pras aulas de biologia, e, na verdade, aquilo nem importava mesmo.

Voltei a olhar pra ela, e mais uma vez me apaixonei por aqueles olhos, que pareciam saltar do rosto quando neles batia o sol. 

A tarde linda que não quer se pôr…

Ela chamou minha atenção para uma flor, para a qual ela apontou, com seu dedo, pequeno e delicado. Mesmo antes do seu “olha que bonita!” eu já sabia que se tratava da sua favorita. A qual nem sua beleza e nem seu aroma se comparavam aos dela.

Voei pra longe. Pro passado?! Quando me voltei, pra dizer a ela “Estava te procurando; senti muito a tua falta”, o frio me alcançou, o céu encobriu, e a chuva caiu, em gordas e congelantes gotas. Mas elas não pareciam me molhar. Com os olhos desesperados procurei por ela, mas ela não estava mais lá.  

O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou… 

A minha frente só vi minha escrivaninha, alguns papéis e canetas, e o meu computador. Ouvi um leve suspiro, me virei para a cama e lá estava ela, deitadinha e bonita, quase adormecendo sobre um livro. Pisquei de novo e esfreguei os olhos, de maneira cartunesca, mas ela também já não estava mais lá.

Vi seu vulto, saindo pela porta, e me levantei em um pulo, mas, quando desembestei pelo corredor, não havia ninguém lá.

Escutei um barulho, vindo do banheiro, e antes mesmo de adentrá-lo vi no espelho um lindo reflexo, que pintava os lábios que eu tanto amava com aquele batom, que ela usava quando queria me provocar. Entrei enfim, e nem sinal de toda aquela estupenda vida havia lá. 

Da cozinha ouvi tampas encaixando em panelas, e senti o cheiro daquela sopa, que só ela sabia preparar. Fui na ponta dos pés, para surpreendê-la e abraçá-la por trás, como eu costumava fazer. Ao chegar lá me deparei com pratos sujos, garrafas vazias de vinho barato e latas de cerveja caídas, embalagens com farelos, mas mais nada havia lá. 

Milhões de vasos sem nenhuma flor…

Mais nada havia lá. Nem cá.

“Estou alucinando em modo multisensorial, veja só… essa é nova.”. 

O que você está dizendo? O que você está fazendo? Por que que está fazendo assim?  

Escutei o barulho da mensagem do celular. Já impaciente e descrente fui olhar. “Tá ocupado? Queria ir aí… A gente podia conversar”. 

O fogo percorreu meu corpo, e eu respondi, sem perder tempo ou hesitar  “VEM!!!”.

“Mensagem enviada”. “Mensagem entregue”. Continuei checando a cada 30 segundos, mas nada havia chegado lá.

Não sei por quanto tempo fiz isso.

Enfim escutei a campainha tocar. O coração perdeu o compasso.

Corri, e abri a porta. 

Como um gatilho sem disparar você invade mais um lugar onde eu não vou…