Tatuagem

Você olha pra fora da janela. Olha e olha, mas não vê nada.

E você “faz a louca” (sim, porque você já “meio que” O renegou hace mucho) e roga a Deus por alguma luz, mas Ele não te ajuda. Não é por você não conseguir reconhecer os sinais Dele, ou porque Ele não te escuta; é porque Ele realmente não está lá.

E no último do desespero (risível), você resolve pedir ao diabo, e fica só esperando ver as fuças e os chifrinhos dele, mas ele também não vem.

Você acha, e diz a si mesmx e aos outros que não consegue entender o que está errado ou fora do lugar, mas você sabe exatamente o que é. Você sabe exatamente tudo o que não encaixa e/ou faz falta.

E você senta, ajoelha, pede, implora, suplica!, pra ir dormir, sem sonhar, e sem lembrar. Mas, ah… você sonha. E você lembra também.

E fica revoltadx porque não conseguia se lembrar da maldita equação pra prova da escola, ou a citação daquele autor importante na faculdade. Mas o brilho dos olhos da pessoa, como o mundo se iluminava quando ela sorria, ou o toque macio dos dedos dela no seu rosto e nos seus cabelos você não consegue apagar ou esquecer.

Por que é que você lembra? Por que é que, justamente disso tudo, você não consegue esquecer? Por quê?!

Daí você se toca que isso tudo é como uma tatuagem, gravada fundo na sua pele. E que lá ela vai ficar, talvez não pela eternidade, mas, pelo menos, até o fim dos seus dias.

Game over

Curitiba, 2007

Fins dos 47, a prorrogação não parece ajudar a mais ninguém: os times não saem do zero a zero. O “G” de “game over” já começa a aparecer na tela, quando o atacante do time A, em seu gás final, derruba o zagueiro do time B e marca um gol.

Mas a torcida não comemora. Não, não comemora. Mas como não?! Ah, era um amistoso. Sem perdedores; era como tinha que ser. O gol quebrou esse acordo. Quer dizer, tava subentendido. Todo mundo sabia. Ou parecia saber… A notícia estamparia a primeira página dos principais jornais na manhã seguinte. “O time A, sempre honesto, agiu de má-fé”. É. A derrota destruiu o moral do time B, que já andava mal das pernas. Como chegar no atacante A e perguntar por que ele havia feito aquilo? Foi cruel; foi devastador; foi… foda.

O campo de futebol se transformou em um campo de guerra; destruição de uma história bonita, tristeza, e melancolia por toda a parte.

Mas logo o campo de guerra do atacante do time A se transformou em um campo de flores, e o do zagueiro do time B virou um descampado. Enquanto se respirava vida no primeiro, se cuspia, expirava e suava morte no outro. E isso não é um exercício de hipérboles! É um retrato de um simples cronista esportivo.

 

Não, isto não se trata de uma crônica esportiva. Sim, isto se trata de… um eufemismo, comparação…, por aí.

26 anos de amistosos depois. O fato é que a mulher seguiu com a sua vida, casou novamente, mesmo contra a vontade dos filhos. O homem, por sua vez, começou a somar vícios e mágoas. Ou foi o contrário? De qualquer maneira, saldo negativo. Os dois jogadores ficaram devendo pontos… game over

 

3:45 am

3:45 am. I wake up. Again. It’s been a while I don’t know what’s to have a full night’s sleep. And always at around the same time. “Shit. I have to get up in two hours”.

People say if you can’t sleep it’s ‘cause somebody’s dreaming of you. Haha. I don’t think so.

Exhaustion. Pain. PMS. Sleep deprivation. They make you see things. But they don’t tell you what’s real and what’s not.

“What’s wrong?”, you might ask. That’s what people’ve been asking, actually. I sadly, yet honestly, do not have the slightest clue of the answer to that.

“So, what did you do on the weekend?”. “Well, on Saturday, at night, I went to a hospital. The doctor told me I need to slow down, and rest more. As the last one said. So I had to ask him if he was hiring, haha. Then they gave me intravenous medication, but it didn’t really go away”. I got a souvenir, though; I still have the usual bruise the needles leave me, as if I gave myself a lame hickey. And I still have these weird pains.

“I have a headache in my chest”. And every where else. My back hurts. My chest hurts. These pains make me tense, so my shoulders, my neck and my head hurt. The lack of rest and sleep make everything worse, so now I have a sore throat, and my cheek bones hurt as well.

In some moments they are more intense. Like now; I just laid down, after a busy day. My back and my feet are killing me, and I feel my knees and my arms terribly weak.

And so I think: “What is it? Is it my fault? What am I doing? And why?!”.

Wednesday morning, I’m soaking wet, and the doctor calls my name. He’s so adorably old… it makes me feel bad, ‘cause I can’t understand a single word he says. Awkward…

X-rays are done. “Forget about what they told you before. You don’t need those drugs. You need physical therapy. Stretch a little, and you’ll be fine”.

But I won’t. ‘cause I (humbly) KNOW that’s not it. At least not all of it. As I walk to the bus stop the tears–of sadness and rage – drop with the rain, and I beg for my bed and some dry socks.

Three doctors in less than a week. “Oh, she’s coming. Pick a disease and tell her. She won’t notice”. The aches and discomfort can blur my vision, but I’m not blind.

“How are you?”. “I’m okay”.

But  I’m not. I’m such a liar. I don’t even know what’s the problem. Or problems. But I do know something’s not “okay”.

I guess I should just go to sleep… That’s probably the best thing I can do now.

 

*    *   *

 

I reluctantly open my eyes. Look for the cell phone. It’s 3:45 am.

 

Divagação

Toda sexta-feira de manhã eu tenho consulta com a psicóloga. Sim, eu tenho consultas com uma psicóloga. E sim, toda semana.

É bem legal no final das contas. Por N motivos. Eu acordo cedo pra caramba, mais ou menos como em vários outros dias da semana, mas neste em especial (e pra literalmente variar) é pra fazer algo pra mim mesma.

Eu gosto muito, de sair e de poder falar com ela. Clichê ou não: há muita coisa que atualmente eu só consigo confiar a ela. Mas o último mês foi bem complicado; faltou vontade de ir até lá. Em parte por querer ficar dormindo, mas também por estar decepcionada comigo mesma, e não saber bem o que dizer. Não é nem vergonha ou “travas e amarras”; é confusão mesmo.

E um sentimento intermitente de derrota, que alterna com as culpas (por não conseguir enxergar o meu próprio progresso, ou por saber que há coisas que eu continuo me infligindo, por exemplo).

Eu vou pro centro, o que é bem fora da minha rotina e do meu caminho da roça de cada dia. De ônibus, o que me dá tempo pra ler, escutar música, pensar, e ver como a cidade, as coisas e as pessoas estão mudando.

Não fosse o meu constante cansaço (que me motiva a voltar rapidamente pra casa), eu ia querer me enrolar, e ficar mais. Mas sozinha e sem um propósito as vezes é chato.

Curto muito mesmo andar pela XV, escutando músicas e pessoas. Vendo as cores e cenas que eu perco no dia-a-dia. Me sinto quase uma “caipira” desajeitada, passeando na cidade grande, vindo direto da sua pequena bolha (no) interior.

Há uns dois meses, enquanto tomava um café na praça Osório, eu escutava “She moves in her own way” da The Kooks. Antes de chegar a uma e outra música, que me trazem muitas lembranças, eu pensei o quanto sentiria falta disso tudo, mais especificamente dessa vida toda singular que eu vejo na XV e nesse pedaço do centro como um todo. Das cores da Riachuelo depois da reforma, e da beleza que eu descobri no Paço da Liberdade. Da Generoso Marques em geral. Dos lírios que eu as vezes compro lá. Das bandas e ideias que escutei pelo Largo. Das vidas e das histórias que eu conheci nos teatros daqui. E também das vidas e histórias que eu conheci na “vida real”.

Mais recentemente eu finalmente percebi que não há mais nada que de fato me prenda à cidade. Os motivos que me seguravam aqui, e que de fato eram mais do que importantes para mim, já se esvaíram mais ou menos “naturalmente” pelos meus dedos.

Pra um eu olho com profundo orgulho (quase maternal), e pro outro com mais profundo ainda pesar (saudoso e partido, por falta de denominações mais adequadas, ou vontade de explicar melhor).

E, desde então, eu venho falando a mim mesma que, talvez, seja mais do que hora pra mudar. Pra me mudar. Dar os devidos “adeus”, e partir.

O lugar – “meu” lugar – que eu tanto aprecio (sim, até certo ponto eu devo ser bem bairrista mesmo – como todx curitibóca que se preze) está começando a me intoxicar, a me (literalmente) adoecer e a me diminuir e anular.

Mas, sabe, o sentimento é verdadeiro; “eu poderei voltar quando você quiser”. Ou quando eu achar um novo motivo que me faça voltar.