Amanhã

Até certo momento, ou certo ponto, você consegue se preservar, e faz tudo que está (ou não. Ou mais!) ao seu alcance, pra que isso aconteça, e para que você não sucumba frente aos seus medos, ás pressões (as do mundo e as auto-impostas), ao vazio… à dor.

Mas as vezes você cruza aquela linha invisível, e tudo aquilo – a dor, principalmente –, que você tanto tentou evitar, te mastiga e te engole.

Se você ainda tiver alguma força, talvez você consiga provocar ânsia no monstro, e com – além de tudo – alguma sorte, talvez ele te regurgite.

Caso contrário, ele vai te digerir. Ele vai te quebrar em pedaços cada vez mais minúsculos, e sugar absolutamente tudo o que puder de você. Ao final, você não será nada além de um imprestável monte de restos.

Daí você tem um dia cinza. Depois um dia ruim. Um dia péssimo. No próximo, como o passarinho cagou no seu sapato, mas não na sua cabeça, como você tropeçou na rua em frente a uma multidão, mas não caiu, e como você quebrou a unha até a parte em que ela se cola à pele, mas ela não descolou totalmente, você julga que o dia foi “bom” (se comparado aos anteriores). Daí no seguinte você fica na cama o dia inteiro, porque não têm forças ou vontade de fazer mais nada, mesmo sendo esta a sua única folga da semana. Numa quinta, depois de dias melhores, você acorda literalmente engasgando, depois de um pesadelo, e tem uma crise de ansiedade, que te faz chorar descontroladamente por horas; a cama e o travesseiro voltam a ser os seus melhores amigos – e que tipo de pessoa deixa os amigos pra trás?! E depois disso, você sente que todo o seu progresso vai pro ralo, e os dias que se seguem tem gosto de tristeza e derrota, à medida que você começa a duvidar cada vez mais da sua sanidade e do que realmente está (ou não) lá.

E então você implora, entre as lágrimas que você recém redescobriu, por um sono sem sonhos. Por uma noite sem amanhã. Por uma amnésia providencial. Mas o amanhã vem. Os sonhos vêm. E as memórias também.

E as pessoas ao redor te chamam de pessimista quando você responde “assim espero”, logo após elas falarem que as coisas vão melhorar. A culpa não é delas; nem sempre é fácil ou possível entender o quanto as circunstâncias podem roubar qualquer otimismo de você – que já tem servido de exemplo vivo para o dito do “cachorro morto”. Tirando, é claro, o fato de que, ainda assim, a vida e as pessoas não param de bater em você.

Você quer gritar, ao ponto de ensurdecer o mundo, ou ao ponto de exorcizar de si mesma todo esse “patético” sofrimento. Mas as outras vozes te oprimiram, te reduziram, e te convenceram de que já não vale mais a pena discutir e falar, então, ao abrir a boca, você não consegue mais ouvir o som da própria voz.

Creio que é nesse momento que você percebe que, de fato, a palavra dita não volta, mas que provavelmente isso não significa nada, porque das palavras recebidas você parece não conseguir se desvencilhar, mas as ditas não parecem ir a lugar algum. E percebe também que essas coisas todas que a gente (acha que) sente, ou diz sentir, as vezes não tem valor algum.

Ao fim, você se vê sentada, no escuro, muda e assustada, ridícula e covarde, projeto tosco, imperfeito e inacabado de si, reconsiderando se reza ou não para um deus no qual há muito já não sabe se acredita.

E tudo o que você quer é um sono sem sonhos. Uma noite sem amanhã. Ser esquecida. Tudo o que você quer é esquecer.

A noite foi longa. E curta. E o dia vem sendo cinza. Mas, supostamente, ainda há um amanhã.

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