Vermillion part 1

“(…) I won’t let this build up inside of me

She isn’t real (…)”

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Amanhã

Até certo momento, ou certo ponto, você consegue se preservar, e faz tudo que está (ou não. Ou mais!) ao seu alcance, pra que isso aconteça, e para que você não sucumba frente aos seus medos, ás pressões (as do mundo e as auto-impostas), ao vazio… à dor.

Mas as vezes você cruza aquela linha invisível, e tudo aquilo – a dor, principalmente –, que você tanto tentou evitar, te mastiga e te engole.

Se você ainda tiver alguma força, talvez você consiga provocar ânsia no monstro, e com – além de tudo – alguma sorte, talvez ele te regurgite.

Caso contrário, ele vai te digerir. Ele vai te quebrar em pedaços cada vez mais minúsculos, e sugar absolutamente tudo o que puder de você. Ao final, você não será nada além de um imprestável monte de restos.

Daí você tem um dia cinza. Depois um dia ruim. Um dia péssimo. No próximo, como o passarinho cagou no seu sapato, mas não na sua cabeça, como você tropeçou na rua em frente a uma multidão, mas não caiu, e como você quebrou a unha até a parte em que ela se cola à pele, mas ela não descolou totalmente, você julga que o dia foi “bom” (se comparado aos anteriores). Daí no seguinte você fica na cama o dia inteiro, porque não têm forças ou vontade de fazer mais nada, mesmo sendo esta a sua única folga da semana. Numa quinta, depois de dias melhores, você acorda literalmente engasgando, depois de um pesadelo, e tem uma crise de ansiedade, que te faz chorar descontroladamente por horas; a cama e o travesseiro voltam a ser os seus melhores amigos – e que tipo de pessoa deixa os amigos pra trás?! E depois disso, você sente que todo o seu progresso vai pro ralo, e os dias que se seguem tem gosto de tristeza e derrota, à medida que você começa a duvidar cada vez mais da sua sanidade e do que realmente está (ou não) lá.

E então você implora, entre as lágrimas que você recém redescobriu, por um sono sem sonhos. Por uma noite sem amanhã. Por uma amnésia providencial. Mas o amanhã vem. Os sonhos vêm. E as memórias também.

E as pessoas ao redor te chamam de pessimista quando você responde “assim espero”, logo após elas falarem que as coisas vão melhorar. A culpa não é delas; nem sempre é fácil ou possível entender o quanto as circunstâncias podem roubar qualquer otimismo de você – que já tem servido de exemplo vivo para o dito do “cachorro morto”. Tirando, é claro, o fato de que, ainda assim, a vida e as pessoas não param de bater em você.

Você quer gritar, ao ponto de ensurdecer o mundo, ou ao ponto de exorcizar de si mesma todo esse “patético” sofrimento. Mas as outras vozes te oprimiram, te reduziram, e te convenceram de que já não vale mais a pena discutir e falar, então, ao abrir a boca, você não consegue mais ouvir o som da própria voz.

Creio que é nesse momento que você percebe que, de fato, a palavra dita não volta, mas que provavelmente isso não significa nada, porque das palavras recebidas você parece não conseguir se desvencilhar, mas as ditas não parecem ir a lugar algum. E percebe também que essas coisas todas que a gente (acha que) sente, ou diz sentir, as vezes não tem valor algum.

Ao fim, você se vê sentada, no escuro, muda e assustada, ridícula e covarde, projeto tosco, imperfeito e inacabado de si, reconsiderando se reza ou não para um deus no qual há muito já não sabe se acredita.

E tudo o que você quer é um sono sem sonhos. Uma noite sem amanhã. Ser esquecida. Tudo o que você quer é esquecer.

A noite foi longa. E curta. E o dia vem sendo cinza. Mas, supostamente, ainda há um amanhã.

Bluebird

Bluebird

“there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?”

Charles Bukowski

* Dacnis cayana

Estiagem

Procurando algo nada a ver, me deparei com isso, e… wow. Feliz 2007. E feliz 2014.

Aquele ano foi especial; foi o ano da minha “grande sacada espiritual”. Eu percebi que ele acabava, e, dentro de alguns anos (nunca, porém, iguais àquele), também eu me acabaria. Era a noite da minha formatura da faculdade.

O dia todo tinha sentido uma incômoda dor de barriga, que depois fui descobrir ser a angústia, que me sacudia toda, e implorava para sair. Estar ali, sentada frente a professores, colegas e famílias – mas não a minha – despertou em mim um monstro novo. Mas esse monstro não era de todo ruim.

O monstro eram as lágrimas, que há tanto tempo não apareciam. Não as vi quando o Brasil perdeu a última copa, e nem quando o papa morreu; e também não me visitaram quando (poucos anos atrás) meus pais morreram e eu, ainda adolescente, me vi sendo a mãe e o pai do meu irmão mais novo – momento no qual meus avôs e nossos padrinhos (aqueles, que antes prometeram cuidar de nós, caso algo acontecesse) nos deram as costas.

E elas começaram então a cair, sem controle ou aviso prévio. Jorraram como uma fonte – como um rio que novamente se enche depois de uma longa estiagem.

O meu período de seca acabava, e ali, com os olhos embaçados de água, sal e maquiagem, eu via com uma clareza e segurança que não tinha (e nem entendia) desde criança.

Naquele dia vi que já podia parar de fugir; que havia achado um esconderijo, não perfeito, mas seguro o bastante para continuar com a minha vida. Percebi que parte do esforço da minha luta (pesadelo recorrente) estava se concretizando em algo recompensador. A minha história, enfim regada, havia verdejado, florescido, e me dado um fruto doce e suculento, e eu chorava de alegria por poder comê-lo.

Nos últimos anos fui obrigada a crescer, “tudo ao mesmo tempo agora”. As lágrimas corriam, como quando criança, mas nesse momento eu estava reconfortada, como se estivesse no colo dos meus pais. Que viessem então as lágrimas, pra aplacar a seca dos últimos tempos.