Correndo sozinha

“Eu preciso sair. Correr.”

“Mas acho que daqui a pouco vai chover. É melhor ficar.”

“Talvez seja melhor mesmo. Eu tô sentindo uns calafrios estranhos.”

“Com esse calor?!”

“É! Estranho, né?”

“Muito. Melhor ficar…”

“É… não. Eu vou sair. Já tô me sentindo culpada só de pensar em ficar.”

 

Esse diálogo se passou dentro da minha cabeça. Entre eu e eu mesma.

Ruas desertas. Sim, é dia 31, eu sei, eu sei. Mas… uau. Vazias mesmo. Eu passo por elas quase todo dia. Elas estão sempre movimentadas, mesmo de noite. Mesmo de manhãzinha. Ou mesmo domingo de noite, quando tá quase começando o Fantástico.

Em alguns trechos a única coisa que dá pra escutar é o barulho das minhas passadas no asfalto, ou a minha respiração ofegante.

Corro devagar, despreparada. Tenho que voltar ao meu ritmo. Estava indo tão bem…

Senti que precisava correr. Não só pela culpa, que já ia gritando alto por dentro, mas porque sabia que o cansaço me ajudaria a não ficar ansiosa, e evitaria mais uma daquelas crises, que têm sido cada vez mais freqüentes e implacáveis.

 

Acho que vou passar na padaria, antes de ir pra casa. Lá não tem nada pra beber. Nada que eu queira, digo.

“Obrigado, moça, e feliz ano novo”.

Abro um sorriso. “Pra você também”. E saindo de lá me sinto ridícula, falsa, e vazia. Muito vazia. E muito falsa. E muito ridícula. Eu não consigo acreditar nisso. O ano não terá nada de novo. E me pergunto se terá algo de feliz.

Os dias de expectativa e esperança, pro recesso e pro descanso, se transformaram em dias de tristeza agoniada e um bom tanto de lágrimas.

Chego em casa e me sento, e sinto as gotas de suor escorrendo, devagar, pelas minhas costas. Que abafado… será que vai chover?

 

Tomo banho. Sozinha. Como. Sozinha. Decido assistir um filme. Sozinha. Caio no sono, no sofá. Sozinha. Mas, antes do último (e pouco depois de uma mensagem) é que releio algo, e a ficha finalmente cai: nunca será o suficiente. Eu nunca serei o suficiente – seja lá o que “suficiente” signifique. Aliás, eu é que preciso dar um significado para esse termo.

O que era “basicamente apenas” dor se transforma, em lampejos descontrolados, também em desespero. E mais dor. Sozinha.

Aliás, por que é, afinal, que é tão difícil assim lidar com isso? Se já há tanto de solidão na prática, por que é que o cérebro não aceita isso, na teoria?

 

Eu só queria dormir… só um pouco. Não queria mais correr. Não queria mais ter que correr.

 

Não sozinha.

 

Fogos. Muito barulho e cor e fumaça no céu. “Feliz ano velho” me vem á cabeça, e eu sei muito bem por qual motivo. Acordo muito mais tarde, ainda no sofá. Me levanto e vou pra cama.

 

Já é quase dia 3, e acho que finalmente caiu uma ficha:

 

Sim, sozinha.

 

Tem que ser sozinha. 

Porque eu preciso reaprender a gostar da minha própria companhia. Porque eu preciso de férias de certos ambientes e de certas pessoas. E porque certas pessoas também precisam de férias de mim.

 

Quem sabe assim, eventualmente, eu possa me “reinserir na sociedade” (haha), e parar de me sentir tão perdida e deslocada. Habitando um corpo estranho. Como se eu não pertencesse a lugar algum. Como se eu fosse uma intrusa, prestes a ser enxotada.

 

Ah, é: quem sabe daí eu possa também parar com esse “drama mexicano”. Não; nem tudo é dor. E não; nem tudo tem que ser dor. “A angústia é inerente ao ser humano; você já sabe disso”. Sim, eu sei.

 

Já sei que vou ter que continuar correndo, mas vai ser pra achar o meu canto e conquistá-lo, nem que seja no grito.

 

Por um momento bate um sentimento (mega piegas, mas ainda assim sincero) de que poderei, afinal, descobrir o que “suficiente” é, e, de maneira muito estranha e inesperada, por um momento eu consigo respirar.

 

Respirar é bom. Respirar é legal.

 

“Acho que vou sair pra correr…”.

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