João

Ele tinha um jeito caricato de transformar as coisas ruins em boas. Então, naquele dia, ao passar pela canaleta do ônibus, ao invés de ver o corpo de um menino que tinha acabado de ser atropelado, viu uma imagem de cartoon, daquelas em que o corpo se achata e esparrama pelo chão depois de um carro da Acme passar por cima. Mas nesse caso ele sabia (sabia?!) que a personagem não voltaria ao normal antes do próximo episódio.

Nos jantares de família as irmãs, em arroubos de maturidade, tentavam difamá-lo frente à família inteira – e logo ele imaginava uma cena cômica e muda, bem “a La Chaplin”. A tela escurecia, e as falas delas seriam algo como “blá blá blá”, enquanto dele partiriam muitos “ah.. ah… ah…” completamente desinteressados.

A mãe constantemente dizia “filho, está na hora de crescer!”, e ele via a cena, acelerada, do crescimento de um pé de feijão. De repente ele era João, procurando as faíscas douradas dos ovos de ouro. Despertava do devaneio com as vozes das mulheres da casa – e esse era seu devaneio mais “sério”. Percebeu que desde as dificuldades que sua família começou a passar (tinha quase 15 anos na época), procurou um trabalho atrás do outro; procurava perseverantemente a tal galinha. Agora estavam novamente bem, mas a única coisa que tinha visto mais de perto era apenas algumas penas perdidas daquela.

Era crescido, sim senhor. Tinha apenas 22 anos, mas não percebiam que tinha deixado tanto de lado? Via agora os momentos de sua vida; possíveis namoradas, colegas, carros, filmes, roupas, e estes dividiam-se em dois (como o mar Vermelho), formando uma trilha. Ele andava por ela, pelo meio – pelo limbo –, mas sem nunca poder tocar em nada, com o medo de que tudo pudesse se desfazer ou se quebrar.  

O pai, sem nem ele saber, era o único que lhe compreendia. Já por volta dos 50 anos, visualizava sua existência como um frágil castelo de cartas. A base era sólida, construída com muitos baralhos; as torres, porém, eram cada vez mais frágeis, e corriam o risco de desabar ao mais fraco suspiro. Por isso ele sentia que deveria sempre segurar a respiração quando em sua presença – e ficava, então, roxo, como alguém debaixo d’água, e já sem fôlego.

Quando o rapaz passava pelo centro da cidade, via mímicos que seguiam as pessoas, imitando-as. “Eles lembram macacos de circo”, pensava.

Será que os mímicos pensavam o mesmo dele? Se pensassem, teriam razão, julgava. O tempo todo corria de um lado pro outro (imaginava uma barata tonta), num emprego medíocre e sem futuro.

Se crescer significava deixar o lado caricato de lado, preferia continuar sendo pra sempre uma criança.

E então o pai morreu. Uma tristeza sobre-humana se abateu sobre ele. A dor do choque foi tão grande que perdeu sua capacidade de transformar a sua percepção, e, como um par de óculos colocado em um míope (comparação típica, que sentia não poder fazer mais), passou a ver tudo com um desespero claro, nu e cru.

O tempo passava, mas não a sua loucura adquirida. Antes de morrer, o pai lhe disse “não se perca; não se mude”. Não entendia. Em uma noite, sufocado e tresloucado com a lembrança, foi a um bar.

Tomou todas, e mais. Saiu do bar cambaleante, fazendo inveja a qualquer pião recém jogado. Olhou para o lado, e percebeu um carro vindo. Viu então um brilho dourado, mais brilhante que o sol.

Doía agora, mas isso não importava. Era João. Em suas mãos repousava uma galinha, e ao lado dela seus ovos de ouro.

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