O Hamlet nosso de cada dia

“Ser ou não ser – eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias –

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Não mais. E com o sono – dizem – extinguir

Dores no coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer – dormir –

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotência do mando, e o achincalhe

Que o mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso

Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –

O país não descoberto, de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

E assim o matiz natural da decisão

Se transforma no doentio pálido do pensamento.

E empreitadas de vigor e coragem,

Refletidas demais, saem de seu caminho,

Perdem o nome de ação.”

Fogueira das vaidades

– Me falaram que você excluiu teu facebook esses dias. Que zueragi…
– Não exatamente, mas eu desativei mesmo.
– O QUÊ?!
– “O QUÊ” o quê?
– É sério isso então?
– Aham.
– Mas, véi… por quê?!
– …
– Já sei: andou fazendo alguma merda, né?
– Não…
– Ah, pare, alguma tem que ter…
– Humm… não?
– Tá tentando dar um perdido em alguém então!
– Não, cara, eu…
– Não pode… Alguma tem!
– Não tem nada, não. Só deu pra mim.
– E você nunca mais vai reativar a parada?
– Não sei ainda… Talvez… Talvez não… Decidi jogar areia.
– WTF?! O.o… Mas… mas… mas… cara!…

Go with the flow

I get home, just to see her in the kitchen, strongly scrubbing the floor. The day was exhausting; foreign investors were in town, supervising the company’s production, and, as the manager responsible for this area, I had to show them around. The pressure was huge, and the contract’s renewal depended on good impressions.

As I lean to kiss her my back hurts, but I quickly forget about that, as I see the blood on her hands. They have injuries and bruises all over them, on her beautiful pale knuckles, on her palms, on their backs. As I get up, surprised, trying to figure out what the hell is going on, she looks at me, deep in my eyes, and I can see the mascara tears across her face. She is still wearing the black dress, the pearls, and the elegant shoes I saw hear putting on in the morning, before going to work. The lipstick was long gone.

And she keeps scrubbing, compulsively. I gaze around and the floor is impeccably clean. Still, she won’t stop. Why?

“I… must… clean… remove… dirty, dirty, dirty… stained. I must. Clean. Dirty…”.

I kneel and try to hold her, as she cleans the floor. I ask what’s wrong, but she doesn’t answer me. For a moment I ask myself if she’s even aware I’m there, holding her. And it doesn’t take long until I finally realize that no, to her, I’m not there. Or am I? She quietly weeps, and I can’t wash the impression I’m on a dream off of me.

The brush is already dry, and I suspect she has been using her own tears. “For how long is she here?”. I ask myself. She won’t tell me.

I can feel her pain and agony, physically, slowly draining me dry. And then I notice how skinny she has become. She looks weak and fragile, and finally I understand that it–whatever “it” means–has also taken its toll on her.

There are scrapes and bruises also on her arms, neck, legs… were they there in the morning?! I can’t tell… I don’t remember… I guess I wasn’t really paying attention.

I realize I haven’t really been paying attention. More: I realize she must have… discovered. Oh, no…

I know I’m wrong. I always knew. But I was going to tell her!… as soon as the investors were gone… I would be more relaxed, we would go out, have dinner, I would apologize, and tell her the truth. She would be comprehensive, and this would be the first step towards a new beginning for us. Wouldn’t it?

But she found out… Of course. How could I forget? She’s such a smart and intelligent woman; these are two of the many characteristics that got me into her in the first place.

Oh, fuck. I screwed things up. Big time. I brought this on myself–I brought this on her. How could I do that to her? To us?!

How didn’t I notice before?! Look at her!!! I’m a… fucking loser. That’s what I am. Ten years down the drain. Over what? Over nothing!

The sobbing stops. I guess she’s back to surface. She unlocks herself from my arms. She stares at me while she tilts her head. I can see the despair is gone. Her eyes are blank, empty.

She bluntly says “I can’t make you hang around. I can’t wash you off my skin. Believe me, I have tried”.

And as she says I automatically know she really did. She was strong, this one. And still I managed to break her–in a way I have no idea if she will ever be able to repair. Over what?…

She stands up, and mutters “I want something good to die for; to make it beautiful to live. I want a new mistake–lose is more than hesitate…
Do you believe it in your head? ‘Cause I don’t… ”.

She goes out the back door; I get up and go after her, but she’s already gone with the flow. 

João

Ele tinha um jeito caricato de transformar as coisas ruins em boas. Então, naquele dia, ao passar pela canaleta do ônibus, ao invés de ver o corpo de um menino que tinha acabado de ser atropelado, viu uma imagem de cartoon, daquelas em que o corpo se achata e esparrama pelo chão depois de um carro da Acme passar por cima. Mas nesse caso ele sabia (sabia?!) que a personagem não voltaria ao normal antes do próximo episódio.

Nos jantares de família as irmãs, em arroubos de maturidade, tentavam difamá-lo frente à família inteira – e logo ele imaginava uma cena cômica e muda, bem “a La Chaplin”. A tela escurecia, e as falas delas seriam algo como “blá blá blá”, enquanto dele partiriam muitos “ah.. ah… ah…” completamente desinteressados.

A mãe constantemente dizia “filho, está na hora de crescer!”, e ele via a cena, acelerada, do crescimento de um pé de feijão. De repente ele era João, procurando as faíscas douradas dos ovos de ouro. Despertava do devaneio com as vozes das mulheres da casa – e esse era seu devaneio mais “sério”. Percebeu que desde as dificuldades que sua família começou a passar (tinha quase 15 anos na época), procurou um trabalho atrás do outro; procurava perseverantemente a tal galinha. Agora estavam novamente bem, mas a única coisa que tinha visto mais de perto era apenas algumas penas perdidas daquela.

Era crescido, sim senhor. Tinha apenas 22 anos, mas não percebiam que tinha deixado tanto de lado? Via agora os momentos de sua vida; possíveis namoradas, colegas, carros, filmes, roupas, e estes dividiam-se em dois (como o mar Vermelho), formando uma trilha. Ele andava por ela, pelo meio – pelo limbo –, mas sem nunca poder tocar em nada, com o medo de que tudo pudesse se desfazer ou se quebrar.  

O pai, sem nem ele saber, era o único que lhe compreendia. Já por volta dos 50 anos, visualizava sua existência como um frágil castelo de cartas. A base era sólida, construída com muitos baralhos; as torres, porém, eram cada vez mais frágeis, e corriam o risco de desabar ao mais fraco suspiro. Por isso ele sentia que deveria sempre segurar a respiração quando em sua presença – e ficava, então, roxo, como alguém debaixo d’água, e já sem fôlego.

Quando o rapaz passava pelo centro da cidade, via mímicos que seguiam as pessoas, imitando-as. “Eles lembram macacos de circo”, pensava.

Será que os mímicos pensavam o mesmo dele? Se pensassem, teriam razão, julgava. O tempo todo corria de um lado pro outro (imaginava uma barata tonta), num emprego medíocre e sem futuro.

Se crescer significava deixar o lado caricato de lado, preferia continuar sendo pra sempre uma criança.

E então o pai morreu. Uma tristeza sobre-humana se abateu sobre ele. A dor do choque foi tão grande que perdeu sua capacidade de transformar a sua percepção, e, como um par de óculos colocado em um míope (comparação típica, que sentia não poder fazer mais), passou a ver tudo com um desespero claro, nu e cru.

O tempo passava, mas não a sua loucura adquirida. Antes de morrer, o pai lhe disse “não se perca; não se mude”. Não entendia. Em uma noite, sufocado e tresloucado com a lembrança, foi a um bar.

Tomou todas, e mais. Saiu do bar cambaleante, fazendo inveja a qualquer pião recém jogado. Olhou para o lado, e percebeu um carro vindo. Viu então um brilho dourado, mais brilhante que o sol.

Doía agora, mas isso não importava. Era João. Em suas mãos repousava uma galinha, e ao lado dela seus ovos de ouro.